Cada vez mais se comenta sobre as divisões no seio do partido no poder em Moçambique, a Frelimo. A cada dia surge na boca do povo, e também da imprensa, um nome novo apontado como provável candidato as próximas eleições presidenciais. Alberto Chipande é um deles, diz-se a boca pequena, que o mesmo não ficou satisfeito por ter sido posto de lado nos negócios do corredor do norte, um empreendimento onde se comenta, também a boca pequena, que tem participação do presidente da república, Armando Guebuza, embora não haja registo oficial disso. A ser verdade, atrevo-me a perguntar o que dita a vontade de governar...
Face as estas especulações alguns moçambicanos com preparo intelectual, em conversa de café, dizem: "mudo de país se o Chipande for presidente!" Não nos esquecamos que muitos generais, que fizeram a luta de libertação, partiram a caneta muito cedo, como se costuma dizer, ou então nunca chegaram a pega-la. Mas não se pode fechar os olhos a um facto, os veteranos estão a assumir cada vez mais um papel preponderante nas decisões do partido, a par dessa sua visibilidade vem também a sua participação na cena empresarial, eles e os seus filhos são proprietários de minas e outras coisas. Isto é oficial, os documentos provam isso. Mais preocupante é o envolvimento de nomes de grandes generais em ilegalidades, a pouco tempo tivemos o exemplo dos 600 contentores de madeira que iam para a China, embora se tenha desmentido o facto. No que se refere a caça ilegal, há quem também diga, a boca pequena, que alguns deles estao envolvidos.
Mas existem outras figuras de prestigio apontadas para suceder Armando Guebuza, Graça Machel é uma delas. O seu historial profissional, o seu activismo no que se refere as direitos humanos e desenvolvimento comunitário, e o facto de ser 2M (Machel-Mandela), como o povo a chama, granjeia simpatias e ela tem ainda um certo carisma. Provavelmente seja um dos potenciais nomes, mas também isto não passa de especulação.
Outro facto, mais evidente, no seio do partido do batuque e da maçaroca, é a existência de uma ala pró-Joaquim Chissano. Esta constitui um forte quase inabalável, na medida em que leva pouco no seu Curriculum em matérias de corrupção, e participou, com bons resultados, de etapas fundamentais do desenvolvimento do país. Também teve ao seu serviço gente capacitada, com um alto background, diria até que gente na sua maioria de elite. Provavelmente esta é a maior barreira para a ala de Armando Guebuza no partido, a Frelimo de Armando Guebuza ainda não conseguiu sair da sombra da Frelimo de Joaquim Chissano. Em paralelo Joaquim Chissano tem merecido destaque na imprensa nacional...
Estas especulações levam-me a questionar sobre a imagem que o próprio presidente do país, e também da Frelimo, tem no seio dos seus camaradas. Tenho a ligeira desconfiança de que tudo isto, mostra-nos que a Frelimo ainda tem a sua parte saudável...
"Filho, vai para a escola aprender a vencer sem ter razão", disse a mãe de um famoso escritor africano no tempo colonial. O conselho continua atual.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A caravana pára para ouvir o cão
Foto: Ismael Miquidade
"Cão que ladra não morde", diz-se. Os moçambicanos cansaram-se de usar esta frase para empacotar as ameaças que o líder do maior partido da oposição, Afonso Dhlakama, fez nos últimos 19 anos. O partido no poder, a Frelimo, fez o pior, seguiu sempre segura e única no comando do país, também empacotando a Renamo com outra frase dita: "Os cães ladram e a caravana passa."
Repentinamente todas estas partes deixaram de ignorar completamente as repetitivas ameaças de Dhlakama, a começar pelo presidente da República, Armando Guebuza, que quase nunca desce do seu palácio quando o país está em crise. A razão dessa viragem, tem a ver com duas ameaças feitas pelo líder da Renamo: primeiro, as acções militares dos seus homens no contro do país, onde a Frelimo definitivamente não manda, e consequentemente a ameaça de criação de quarteis pelo país. A segunda ameaça, na verdade a intensificação da primeira, foi a quando das celebrações dos Acordos de paz, no dia 4 de Outubro. Dhlakama fixou prazos, por sinal muito curtos, pretende expulsar a Frelimo até Dezembro próximo, se esta não mudar a sua governação. Mais uma piada, não? Rimo-nos e com muitos motivos: a Renamo de oposição nada tem, morreu, a nível internacional não existe interesse em que o país volte a guerra, quem iria armar a Renamo? Apesar de tudo isso o presidente do país oferece-se, surpreendentemente, para dialogar.
Porque será?
Não acredito que seja por receio a um retorno a guerra, mas sim por receio de que estas ameaças venham a fazer explodir o barril de polvora que é o país neste momento. Os moçambicanos estão mergulhados numa latente crise social, e perderam o resto de confiança na Frelimo, ou seja, não a respeitam mais.
As últimas manifestações do país foram o melhor recado que o povo passou ao governo de Guebuza. O efeito contágio das constantes manifestações que estão a revolucionar o mundo árabe, e também a África negra, deixam o governo moçambicano temeroso. Não nos esquecamos que Angola é próximo de Moçambique em todos os sentidos. E Afonso Dhlakama não é burro de todo, a palavra "revolução" está a ser usada no momento mais delicado do país. E como Armando Guebuza não deve quer nenhuma "prenda de natal", vai passar mel no Dhlakama. Não nos esqueçamos também que Dezembro é a altura em que os já empobrecidos moçambicanos, que esperam fazer a sua única festa do ano, se vem a nora, porque tudo se torna insuportavelmente mais caro. Enfim, é tudo um jogo e cada partido tira partido da ocasião...
"Cão que ladra não morde", diz-se. Os moçambicanos cansaram-se de usar esta frase para empacotar as ameaças que o líder do maior partido da oposição, Afonso Dhlakama, fez nos últimos 19 anos. O partido no poder, a Frelimo, fez o pior, seguiu sempre segura e única no comando do país, também empacotando a Renamo com outra frase dita: "Os cães ladram e a caravana passa."
Repentinamente todas estas partes deixaram de ignorar completamente as repetitivas ameaças de Dhlakama, a começar pelo presidente da República, Armando Guebuza, que quase nunca desce do seu palácio quando o país está em crise. A razão dessa viragem, tem a ver com duas ameaças feitas pelo líder da Renamo: primeiro, as acções militares dos seus homens no contro do país, onde a Frelimo definitivamente não manda, e consequentemente a ameaça de criação de quarteis pelo país. A segunda ameaça, na verdade a intensificação da primeira, foi a quando das celebrações dos Acordos de paz, no dia 4 de Outubro. Dhlakama fixou prazos, por sinal muito curtos, pretende expulsar a Frelimo até Dezembro próximo, se esta não mudar a sua governação. Mais uma piada, não? Rimo-nos e com muitos motivos: a Renamo de oposição nada tem, morreu, a nível internacional não existe interesse em que o país volte a guerra, quem iria armar a Renamo? Apesar de tudo isso o presidente do país oferece-se, surpreendentemente, para dialogar.
Porque será?
Não acredito que seja por receio a um retorno a guerra, mas sim por receio de que estas ameaças venham a fazer explodir o barril de polvora que é o país neste momento. Os moçambicanos estão mergulhados numa latente crise social, e perderam o resto de confiança na Frelimo, ou seja, não a respeitam mais.
As últimas manifestações do país foram o melhor recado que o povo passou ao governo de Guebuza. O efeito contágio das constantes manifestações que estão a revolucionar o mundo árabe, e também a África negra, deixam o governo moçambicano temeroso. Não nos esquecamos que Angola é próximo de Moçambique em todos os sentidos. E Afonso Dhlakama não é burro de todo, a palavra "revolução" está a ser usada no momento mais delicado do país. E como Armando Guebuza não deve quer nenhuma "prenda de natal", vai passar mel no Dhlakama. Não nos esqueçamos também que Dezembro é a altura em que os já empobrecidos moçambicanos, que esperam fazer a sua única festa do ano, se vem a nora, porque tudo se torna insuportavelmente mais caro. Enfim, é tudo um jogo e cada partido tira partido da ocasião...
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
UNITA: apoia manifestações, mas não faz
O partido no poder em Angola, MPLA, acusou na última semana a UNITA, o maior partido da oposição, de estar por trás das manifestações que tem estado a acontecer no país. Entretanto, o partido do galo nega as acusações e aponta o dedo acusador ao partido no poder no que diz respeito a sua actuação nesta onda de manifestações. Eu, através da Deutsche Welle, conversei com o secretário-geral da UNITA, Abílio Kamalata:
Nádia Issufo: O MPLA acusa a UNITA de estar por trás das manifestações que estão a acontecer em Angola e acusa-o de também de ser um dos princípais executores das contestações. Isto constitui verdade?
Abílio Camalata: Não é primeira vez que a UNITA responde a isso, a UNITA já disse várias vezes que quando chegar a altura de organizar manifestações, e nós temos exactamente limites que estão relacionados com a lei eleitoral e tem de estar de acordo com a Constituição, e se isso não vier a acontecer nós estaremos ai para fazer as manifestações. Neste preciso momento a UNITA não convocou nenhuma manifestação, mas está ao lado dos manifestantes, porque está consagrado na Constituição e é direito do cidadão poder se manifestar. Portanto, não há aqui crime nenhum e até os individuos que fizeram o pedido ao governo de Luanda para fazer as manifestações são conhecidos, e se perguntarem aos senhores do governo de Luanda, eles sabem que não há lá nenhum pedido da UNITA para fazer manifestações.
NI: O MPLA acusa a UNITA de engendrar um plano para derrubar o presidente angolano. Isto é verdade ou nao?
AC: Não, o regime é que está a derrubar-se a si próprio. Nós já dissemos que o regime do MPLA e o presidente José Eduardo dos Santos há mais de 32 anos no poder, com um sistema de governo marcado por uma corrupção galopante, tudo isso leva a que a situação não seja das melhores e por isso a sociedade manifesta-se contra essa situação. Portanto, não é a UNITA que tem um plano, nós estamos a fazer o jogo democrático que o MPLA está a viciar, inclusivamente os senhores sabem que a lei eleitoral aprovada é completamente desajustada a Constituição, e é aqui que estamos a fazer a reivindicação dos nossos direitos.
NI: O MPLA marcou outra manifestação para o próximo dia 24, a semelhança dos contestatários do regime, que se manifestam extamente um dia depois. Qual a sua opinião sobre a atitude do MPLA?
AC: O MPLA pode fazer as manifestações que quiser, nós sabemos que quando o MPLA fizer uma manifestação, será de apoio ao presidente José Eduardo dos Santos, que é o primeiro violador da Constituição. O MPLA faz manifestações para vangloriar, mais uma vez, quem está a governar, e muito mal, Angola há 32 anos e bem protegidos pela polícia. Portanto, não há nenhum asurpresa que o MPLA faça uma manifestação onde os seus militantes estejam presentes, isso para nós não é manifestação, agora que o MPLA sabe que o povo está a organizar manifestações sérias contra o seu regime, isso o MPLA tem mesmo de saber que é uma verdade.
Nádia Issufo: O MPLA acusa a UNITA de estar por trás das manifestações que estão a acontecer em Angola e acusa-o de também de ser um dos princípais executores das contestações. Isto constitui verdade?
Abílio Camalata: Não é primeira vez que a UNITA responde a isso, a UNITA já disse várias vezes que quando chegar a altura de organizar manifestações, e nós temos exactamente limites que estão relacionados com a lei eleitoral e tem de estar de acordo com a Constituição, e se isso não vier a acontecer nós estaremos ai para fazer as manifestações. Neste preciso momento a UNITA não convocou nenhuma manifestação, mas está ao lado dos manifestantes, porque está consagrado na Constituição e é direito do cidadão poder se manifestar. Portanto, não há aqui crime nenhum e até os individuos que fizeram o pedido ao governo de Luanda para fazer as manifestações são conhecidos, e se perguntarem aos senhores do governo de Luanda, eles sabem que não há lá nenhum pedido da UNITA para fazer manifestações.
NI: O MPLA acusa a UNITA de engendrar um plano para derrubar o presidente angolano. Isto é verdade ou nao?
AC: Não, o regime é que está a derrubar-se a si próprio. Nós já dissemos que o regime do MPLA e o presidente José Eduardo dos Santos há mais de 32 anos no poder, com um sistema de governo marcado por uma corrupção galopante, tudo isso leva a que a situação não seja das melhores e por isso a sociedade manifesta-se contra essa situação. Portanto, não é a UNITA que tem um plano, nós estamos a fazer o jogo democrático que o MPLA está a viciar, inclusivamente os senhores sabem que a lei eleitoral aprovada é completamente desajustada a Constituição, e é aqui que estamos a fazer a reivindicação dos nossos direitos.
NI: O MPLA marcou outra manifestação para o próximo dia 24, a semelhança dos contestatários do regime, que se manifestam extamente um dia depois. Qual a sua opinião sobre a atitude do MPLA?
AC: O MPLA pode fazer as manifestações que quiser, nós sabemos que quando o MPLA fizer uma manifestação, será de apoio ao presidente José Eduardo dos Santos, que é o primeiro violador da Constituição. O MPLA faz manifestações para vangloriar, mais uma vez, quem está a governar, e muito mal, Angola há 32 anos e bem protegidos pela polícia. Portanto, não há nenhum asurpresa que o MPLA faça uma manifestação onde os seus militantes estejam presentes, isso para nós não é manifestação, agora que o MPLA sabe que o povo está a organizar manifestações sérias contra o seu regime, isso o MPLA tem mesmo de saber que é uma verdade.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
A marcha-atrás da União Africana
A União Africana cedeu e reconheceu nesta segunda-feira o Conselho Nacional de Transição, o órgão político dos rebeldes, como legítmo representante do povo líbio. Esta decisão acontece depois de um forte finca pé do órgão africano. Eu, através da Deutsche Welle, entrevistei o analista do Instituto Superior de Relações Internacionais em Moçambique, Inácio Noa, sobre esta reviravolta da União Africana.
Deutsche Welle: O que terá originado esta súbita mudança de posição da União Africana?
Noa Inácio: Sempre disse que estávamos perante uma organização que não tinha nenhuma orientação clara, nem consenso alargado. Só para exemplificar, mesmo no comunicado para a orientação da aceitação do Conselho Nacional de Transição, CNT, não se veicula fortemente a opinião da União Africana, mas sim do seu presidente, o que deixa a ideia de que há um grupo de pessoas dentro do conjunto que personifica o movimento da União Africana que está por trás dessa aceitação. Penso que por ai estamos perante uma decisão fragilizada, não se trata de uma decisão consensual, nem muito fortificada e nem a decisão de um bloco, parece-me mais uma decisão forçada de fora para dentro do que de dentro para fora.
DW: Este encontro recente entre a África do Sul e a União Europeia influenciou na mudança de decisão?
NI: Não acredito que a União Europeia tenha ido buscar consenso junto da África do Sul, mas sim terá negociado ou forçado a África do Sul a colocar-se numa situação inquestionável, ou seja, não havia mais nada a fazer. A África do Sul estava numa situação em que muitos países próximos da Líbia já tinham reconhecido o CNT.
DW: Face a esta situação pode se considerar a União Africana um órgão credível?
NI: Não gosto de usar o termo credibilidade ou falta de credibilidade, prefiro chamar instituições fortes ou fracas. Ou seja, as instituições tornam-se fortes ao longo do tempo e com as decisões que tomam, e o suporte das decisões arrojadas que tomam. A União Africana só mostrou o seu sinal agora com esta decisão, mas desde o início da intervenção da NATO, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, que fez o que fez, a União Africana sempre esteve impávida. Até hoje, apesar da decisão que tomou, ainda não reúne consenso sobre isso, nem pela discussão e nem pelo interesse. Temos de reconhecer que estamos a caminho da construção de instituições fortes, o que levará muito, muito tempo.
DW: Em todo o continente africano, a única organização regional que se recusa a reconhecer o CNT é a SADC, enquanto muitos países da África Ocidental não demoraram a fazê-lo. Terá isso um significado particular?
NI: Sabe que na SADC, a Comunidade de Países da África Austral, os movimentos da linha de frente são bastante consolidados, a interligação entre os movimentos e as lideranças são bastante consolidados e tem uma correlação de forças bastante forte, e este espírito extravasa quando eles avançam para olhar as coisas de líderes que vem da mesma geração, ou seja, aqui a permanência do status quo é bastante forte. A SADC é uma região que é nalgum momento é intangível do ponto de vista de absorção de fatores externos, é uma região forte tradicionalmente, com uma linha de frente que ainda se faz sentir até hoje, e com algum caráter particular.
Deutsche Welle: O que terá originado esta súbita mudança de posição da União Africana?
Noa Inácio: Sempre disse que estávamos perante uma organização que não tinha nenhuma orientação clara, nem consenso alargado. Só para exemplificar, mesmo no comunicado para a orientação da aceitação do Conselho Nacional de Transição, CNT, não se veicula fortemente a opinião da União Africana, mas sim do seu presidente, o que deixa a ideia de que há um grupo de pessoas dentro do conjunto que personifica o movimento da União Africana que está por trás dessa aceitação. Penso que por ai estamos perante uma decisão fragilizada, não se trata de uma decisão consensual, nem muito fortificada e nem a decisão de um bloco, parece-me mais uma decisão forçada de fora para dentro do que de dentro para fora.
DW: Este encontro recente entre a África do Sul e a União Europeia influenciou na mudança de decisão?
NI: Não acredito que a União Europeia tenha ido buscar consenso junto da África do Sul, mas sim terá negociado ou forçado a África do Sul a colocar-se numa situação inquestionável, ou seja, não havia mais nada a fazer. A África do Sul estava numa situação em que muitos países próximos da Líbia já tinham reconhecido o CNT.
DW: Face a esta situação pode se considerar a União Africana um órgão credível?
NI: Não gosto de usar o termo credibilidade ou falta de credibilidade, prefiro chamar instituições fortes ou fracas. Ou seja, as instituições tornam-se fortes ao longo do tempo e com as decisões que tomam, e o suporte das decisões arrojadas que tomam. A União Africana só mostrou o seu sinal agora com esta decisão, mas desde o início da intervenção da NATO, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, que fez o que fez, a União Africana sempre esteve impávida. Até hoje, apesar da decisão que tomou, ainda não reúne consenso sobre isso, nem pela discussão e nem pelo interesse. Temos de reconhecer que estamos a caminho da construção de instituições fortes, o que levará muito, muito tempo.
DW: Em todo o continente africano, a única organização regional que se recusa a reconhecer o CNT é a SADC, enquanto muitos países da África Ocidental não demoraram a fazê-lo. Terá isso um significado particular?
NI: Sabe que na SADC, a Comunidade de Países da África Austral, os movimentos da linha de frente são bastante consolidados, a interligação entre os movimentos e as lideranças são bastante consolidados e tem uma correlação de forças bastante forte, e este espírito extravasa quando eles avançam para olhar as coisas de líderes que vem da mesma geração, ou seja, aqui a permanência do status quo é bastante forte. A SADC é uma região que é nalgum momento é intangível do ponto de vista de absorção de fatores externos, é uma região forte tradicionalmente, com uma linha de frente que ainda se faz sentir até hoje, e com algum caráter particular.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
As fragilidades da indústria moçambicana
A política industrial em Moçambique é fraca, conclui uma pesquisa levada a cabo pelo Instituto alemão para política de desenvolvimento, DIE. Intitulado "Política industrial em Moçambique", o estudo aponta fraquezas e lacunas, por exemplo, em relação ao papel dos doadores e a intervenção de gente ligada ao poder político no sector. Um dos pesquisadores que participou do estudo em pareceria com o DIE, Friedrich Kaufmann, falou a DW sobre o assunto, numa entrevista conduzida por Nádia Issufo:
Nádia Issufo: Na vossa opinião como devia ser a relação entre as grandes e médias e pequenas empresas na passagem de conhecimento e criação de oportunidades para as pequenas empresas?
Friedrich Kaufmann: A relação devia ser mais próxima e directa, o que significa que as pequenas empresas devem formar um grupo de empresas que podem servir e cooperar com grandes empresas porque um dos maiores clientes mais interessantes para as pequenas e médias empresas são multinacionais e grandes empresas, sabemos da experiência da Alemanha que uma pequena e média empresa não é capaz de exportar, não pode crescer muito se não pode utilizar o poder e acesso ao mercado.
NI: No caso da Mozal, houve pelo menos uma tentativa de criação de pequenas e médias empresas ao redor do mega-projecto....
FK: O caso da Mozal é interessante e importante a sua experiência, neste caso podemos dizer que é melhor que nada, mas começou tarde demais dada a fraca capacidade das empesas moçambicanas. Uma boa parte das empreas que aproveitaram os programas de assistência técnica são empresas da África do Sul, sucursais de empresas estrangeiras, o que não é mau, mas nos próximos mega-projectos como o carvão de Tete, Sasol e outros, as empresas moçambicanos devem ser incluidas desde o início da planificação dos grandes invstimentos.
NI: E como o governo moçambicano deve intervir neste relacionamento entre as grandes e pequenas empresas?
FK: Todas as grandes empresas tem que preparar o investimento com o governo, naturalmente que o governo e as instituições relativas a este processo tem conhecimento. Então, o CPI, Centro de Promoção de Investimentos, e o ministério da indústria e comércio devem fazer a ligação com as pequenas e médias empresas. E isso deve ser feito através de associações do empresariado moçambicano como o CTA por exemplo, e também existe no país desde o ano passado o IPME, Instituto de Pequenas e Médias Empresas, que é o órgão competente para tratar destes assuntos e coordenar actividades e coordenadar a capacitação de pequenas e médias empresas que partcipam neste jogo com grandes empresas.
NI: O sector do cajú nunca mais viveu bons momentos desde o tempo colonial. O que fragilizou na verdade este sector?
FK: Este é um tema muito complexo, há muitos anos que existem várias iniciativas para reactivar o sector. Houve vários factores como as árvores já envelhecidas que nunca mereceram cuidados. O outro ponto essencial é que a política do Banco Mundial destruiu muito o processamento do sector do cajú, o marketing do produto também é fraco. Tudo isso junto aliado a fraca infraestrutura no norte do país e a falta de formação dos trabalhadores, também se falou muito em roubos de cajú por parte dos trabalhadores e de outras pessoas, o que enfraqueceu o sector. Trabalha-se neste assunto e há algum progresso, mas é um caminho longo, sobretudo com a concorrência e competência de outros países como a Índia e Paquistão, que são muito fortes, Moçambique perdeu a sua posição cimeira no mercado internacional.
NI: Em que medida o sector industrial foi afectado por interesses políticos dos doadores?
FK: Na minha opinião os doadores não tem uma política económica para Moçambique, existem muitos grupos de trabalho dos doadores, como por exemplo na saúde, educação e infraestrutura, mas não existe no apoio ao orçamento um grupo focal para o desenvolvimento do sector privado, e esta é uma área intersectorial muito complexa. Se não existe uma política clara, existe uma filosofia neo-liberal, de melhorar as condições no geral, mas não existe um apolítica industrial, como por exemplo na Ásia. Assim, os doadores até agora tem poucas ideias e pouca influência.
NI: Relativamente a privatização de empresas estatais por parte de gente ligada ao partido no poder, a Frelimo, até que ponto os conflitos de interesses são nocivos a um preogresso na indústria?
FK: É complicada falar objectivamnte sobre isso, um político não tem de ser necessariamente um bom empresário, então a privatização de empresas com novos donos da elite política pode tornar-se um ponto negativo. Outra ponto critico é que o empresário político sabe utilizar as ligações que tem com Estado, tem um acesso preferido a projectos, então isso pode vir a tornar-se uma concorreência ilegal. Actualmente não sei qual é a percentagem moçambicana de empresários que está ligada ou não a política, mas há um claro conflito de interesses. Se gente no poder Executivo tem interesses económicos pode desviar um pouco decisões que devem ser para a população e seu bem estar, e esse é um claro conflito de interesses que não gostamos de ver.
NI: Concluindo, pode se dizer, em relação a política industriual, que ela é incipeinte ou que não existe?
FK: É fraca, não existe ou é muito pontual. Em muitos sectores as estratégias não são coordenadas, não há uma visão geral, também não há dinheiro para implementação de estratégias, geralmente no país as estratégias existem apenas no papel, as vezes boas estratégias, mas falta capacidade institucional de implementação. Então, assim não se pode falar de uma estratégia industrial.
NI: Na sua óptica, que medidas Moçambique tem que tomar para ter uma política industrial sólida e sustentável?
FK: Confome a nova filosofia que se chama "Washington consesus", e agora chamamos "Beijing consensus", que é uma boa mistura inteligente entre intervenções do Estado, com base em vantagens comparativas de um país, e Moçambique tem vantagens comparativas, e condições gerias favoráveis para o sector privado. Então, Moçambique tem de reduzir mais a burocracia e a corrupção, e por outro lado tem de focalizar os recursos que tem numa estratégia inteligente para criar condições para educação e infraestruturas, sobretudo, para sectores onde eles tem vantagens comparativas positivas.
Nádia Issufo: Na vossa opinião como devia ser a relação entre as grandes e médias e pequenas empresas na passagem de conhecimento e criação de oportunidades para as pequenas empresas?
Friedrich Kaufmann: A relação devia ser mais próxima e directa, o que significa que as pequenas empresas devem formar um grupo de empresas que podem servir e cooperar com grandes empresas porque um dos maiores clientes mais interessantes para as pequenas e médias empresas são multinacionais e grandes empresas, sabemos da experiência da Alemanha que uma pequena e média empresa não é capaz de exportar, não pode crescer muito se não pode utilizar o poder e acesso ao mercado.
NI: No caso da Mozal, houve pelo menos uma tentativa de criação de pequenas e médias empresas ao redor do mega-projecto....
FK: O caso da Mozal é interessante e importante a sua experiência, neste caso podemos dizer que é melhor que nada, mas começou tarde demais dada a fraca capacidade das empesas moçambicanas. Uma boa parte das empreas que aproveitaram os programas de assistência técnica são empresas da África do Sul, sucursais de empresas estrangeiras, o que não é mau, mas nos próximos mega-projectos como o carvão de Tete, Sasol e outros, as empresas moçambicanos devem ser incluidas desde o início da planificação dos grandes invstimentos.
NI: E como o governo moçambicano deve intervir neste relacionamento entre as grandes e pequenas empresas?
FK: Todas as grandes empresas tem que preparar o investimento com o governo, naturalmente que o governo e as instituições relativas a este processo tem conhecimento. Então, o CPI, Centro de Promoção de Investimentos, e o ministério da indústria e comércio devem fazer a ligação com as pequenas e médias empresas. E isso deve ser feito através de associações do empresariado moçambicano como o CTA por exemplo, e também existe no país desde o ano passado o IPME, Instituto de Pequenas e Médias Empresas, que é o órgão competente para tratar destes assuntos e coordenar actividades e coordenadar a capacitação de pequenas e médias empresas que partcipam neste jogo com grandes empresas.
NI: O sector do cajú nunca mais viveu bons momentos desde o tempo colonial. O que fragilizou na verdade este sector?
FK: Este é um tema muito complexo, há muitos anos que existem várias iniciativas para reactivar o sector. Houve vários factores como as árvores já envelhecidas que nunca mereceram cuidados. O outro ponto essencial é que a política do Banco Mundial destruiu muito o processamento do sector do cajú, o marketing do produto também é fraco. Tudo isso junto aliado a fraca infraestrutura no norte do país e a falta de formação dos trabalhadores, também se falou muito em roubos de cajú por parte dos trabalhadores e de outras pessoas, o que enfraqueceu o sector. Trabalha-se neste assunto e há algum progresso, mas é um caminho longo, sobretudo com a concorrência e competência de outros países como a Índia e Paquistão, que são muito fortes, Moçambique perdeu a sua posição cimeira no mercado internacional.
NI: Em que medida o sector industrial foi afectado por interesses políticos dos doadores?
FK: Na minha opinião os doadores não tem uma política económica para Moçambique, existem muitos grupos de trabalho dos doadores, como por exemplo na saúde, educação e infraestrutura, mas não existe no apoio ao orçamento um grupo focal para o desenvolvimento do sector privado, e esta é uma área intersectorial muito complexa. Se não existe uma política clara, existe uma filosofia neo-liberal, de melhorar as condições no geral, mas não existe um apolítica industrial, como por exemplo na Ásia. Assim, os doadores até agora tem poucas ideias e pouca influência.
NI: Relativamente a privatização de empresas estatais por parte de gente ligada ao partido no poder, a Frelimo, até que ponto os conflitos de interesses são nocivos a um preogresso na indústria?
FK: É complicada falar objectivamnte sobre isso, um político não tem de ser necessariamente um bom empresário, então a privatização de empresas com novos donos da elite política pode tornar-se um ponto negativo. Outra ponto critico é que o empresário político sabe utilizar as ligações que tem com Estado, tem um acesso preferido a projectos, então isso pode vir a tornar-se uma concorreência ilegal. Actualmente não sei qual é a percentagem moçambicana de empresários que está ligada ou não a política, mas há um claro conflito de interesses. Se gente no poder Executivo tem interesses económicos pode desviar um pouco decisões que devem ser para a população e seu bem estar, e esse é um claro conflito de interesses que não gostamos de ver.
NI: Concluindo, pode se dizer, em relação a política industriual, que ela é incipeinte ou que não existe?
FK: É fraca, não existe ou é muito pontual. Em muitos sectores as estratégias não são coordenadas, não há uma visão geral, também não há dinheiro para implementação de estratégias, geralmente no país as estratégias existem apenas no papel, as vezes boas estratégias, mas falta capacidade institucional de implementação. Então, assim não se pode falar de uma estratégia industrial.
NI: Na sua óptica, que medidas Moçambique tem que tomar para ter uma política industrial sólida e sustentável?
FK: Confome a nova filosofia que se chama "Washington consesus", e agora chamamos "Beijing consensus", que é uma boa mistura inteligente entre intervenções do Estado, com base em vantagens comparativas de um país, e Moçambique tem vantagens comparativas, e condições gerias favoráveis para o sector privado. Então, Moçambique tem de reduzir mais a burocracia e a corrupção, e por outro lado tem de focalizar os recursos que tem numa estratégia inteligente para criar condições para educação e infraestruturas, sobretudo, para sectores onde eles tem vantagens comparativas positivas.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Jornalismo umbiguista?
"Depois de uma pausa de verão no hemisfério norte, muitas cidades marroquinas voltaram a ser palco de manifestações."
Quantas vezes não lemos ou ouvimos notícias em que jornalistas usam referências suas para periodizar acontecimentos? Para além de não ser esse o assunto da notícia, a sua estação do ano, este tipo de construção evidencia uma postura muito egoista e "eurocentrista", denotando que as heranças coloniais foram sim, bem transmitidas. Mesmo que na boca e nas acções dos mesmos muita coisa tenha mudado, no discurso o sistema prevalece de forma muitas vezes inconsciente. Raramente ouviremos um jornalista africano usar as suas referências de tempo para informar algo, mas o jornalista que está "lá em cima" a olhar para baixo, não hesita muito em faze-lo...
Enfim, detalhes tão pequenos, porém tão reveladores...
Quantas vezes não lemos ou ouvimos notícias em que jornalistas usam referências suas para periodizar acontecimentos? Para além de não ser esse o assunto da notícia, a sua estação do ano, este tipo de construção evidencia uma postura muito egoista e "eurocentrista", denotando que as heranças coloniais foram sim, bem transmitidas. Mesmo que na boca e nas acções dos mesmos muita coisa tenha mudado, no discurso o sistema prevalece de forma muitas vezes inconsciente. Raramente ouviremos um jornalista africano usar as suas referências de tempo para informar algo, mas o jornalista que está "lá em cima" a olhar para baixo, não hesita muito em faze-lo...
Enfim, detalhes tão pequenos, porém tão reveladores...
Primavera em África?
Será que existe? Na maior parte dos países não existe, ou pelo menos não com esse nome. Há coisas semelhantes, por exemplo, na minha terra há uma epoca em que as árvores dão flores, mas acho que não existe nome para tal, que eu saiba. Na Tunísia existe a primavera (não sei se por causa do turismo...), no Egipto, existem epocas de colheita, da chuvas, e de plantio. O conceito primavera é tipicamente ocidental, uma vez que eles categorizam as estações do ano até com datas de íncio e fim, e tem quatro estações: inverno, primavera, verão e outono.
Essa observação para questionar apenas uma coisa: porque cargas de água as revoluções no norte de África são chamadas de Primavera? Aos olhos de que quem são primaveras? Até quando os acontecimentos africanos vão ser catalogados segundo conceitos e visão externos?
Talvez por isso a Líbia, que só conhece as epocas quente e fria, nunca vai saber o que é a primavera...
Essa observação para questionar apenas uma coisa: porque cargas de água as revoluções no norte de África são chamadas de Primavera? Aos olhos de que quem são primaveras? Até quando os acontecimentos africanos vão ser catalogados segundo conceitos e visão externos?
Talvez por isso a Líbia, que só conhece as epocas quente e fria, nunca vai saber o que é a primavera...
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