terça-feira, 5 de novembro de 2013

Traumas de guerra não é assunto em Moçambique

 Os traumas da guerra civil dos 16 anos em Moçambique nunca foram resolvidos, mas a actual tensão político-militar trás o assunto ao de cima. É que os primeiros traumas sempre foram ignorados, tal como os  medos que agora nascem, com a população em fuga nas zonas de grande tensão na província central de Sofala. As suas condições de sobrevivência são precárias e ela é constantemente atormentada pelo medo. Durante a guerra civil, que opôs a RENAMO e o Governo da FRELIMO e terminou em 1992, cerca de 900.000 pessoas morreram e 250.000 crianças ficaram órfãs. A sociedade e a comunicação social pouco falaram sobre o que foi feito para minimizar os traumas de guerra. Entrevistoi para a DW África o psicoterapeuta moçambicano Boia Efraime, presidente da Associação de Psicologia de Moçambique e colaborador da Associação Reconstruindo a Esperança.


Nádia Issufo (NI): Foi um erro o facto de Moçambique não ter criado uma comissão da verdade para discutir as crueldades da guerra civil dos 16 anos?

Boia Efraime (BE): Eu penso que sim. O que está em causa é revisitar os erros cometidos no passado, num processo em que cada um assume a culpa individual e colectiva pela guerra, pela destruição e pelas atrocidades cometidas. E penso que é possível começar a ver o outro como um ser humano, como cidadão, como alguém útil no processo de construção e consolidação de um futuro comum. A não haver isto, não se estabelece a confiança.

Eu trabalhei com crianças-soldado. Não houve, por exemplo, o reconhecimento das atrocidades cometidas na guerra e das responsabilidades individuais e colectivas pelo que aconteceu. Houve uma tentativa de acusar o regime do Apartheid na África do Sul, o regime socialista na União Soviética e na RDA (ex-República Democrática da Alemanha), mas não houve um reconhecimento de que isto foi feito em primeira pessoa por nós moçambicanos.

NI: E qual é a consequência desta situação não abordada?

BE: Penso que se continua a ver o outro como como um inimigo. É disseminado o pensamento de que a destruição do outro poderia ser a solução dos conflitos que temos em Moçambique. Isso nos mais variados níveis: psíquico, político, material. Esse cenário leva à situação que estamos agora a evidenciar.

NI: Será que a aposta da RENAMO em símbolos bélicos, com o regresso do seu líder Afonso Dhlakama à base em Gorongosa, foi como brincar com fogo num país que ainda não ultrapassou os traumas de guerra?

BE: Penso que sim. Se invertêssemos a equação e colocássemos a FRELIMO no lugar da RENAMO, possivelmente, teríamos o mesmo resultado. A FRELIMO não tem confiança na RENAMO e vice-versa. E penso que esteve sempre presente a utilização do recurso da pressão militar. Se a RENAMO teve algum protagonismo na história moçambicana é porque manteve sempre o seu exército. Se não tivesse um exército, não seria vista pelo Estado como alguém que deve ser ouvido. Isso quer dizer que a Constituição do país passa pela integração de todos os moçambicanos e não pela partidarização das forças armadas, da polícia e dos mecanismos de distribuição de riqueza.

NI: Como o trauma dos 16 anos de guerra civil se manifesta numa situação de conflito como a que Moçambique vive actualmente?

BE: Uma pessoa do Parlamento dizia-me que muitos debates políticos no próprio Parlamento eram de certa maneira irracionais, porque nas bancadas da FRELIMO e da RENAMO estavam presentes pessoas que, durante a guerra, combateram em lados diferentes e foram responsáveis por actos militares que levaram à morte de familiares de deputados de outra bancada. Vinha-lhe ao de cima sentimentos de raiva, confusão e agressão, porque, para ela, aquelas pessoas continuavam a ser responsáveis pelo que aconteceu.

NI: Acha que a sociedade moçambicana e o Governo tomaram ou tomam em conta a questão do trauma?

BE: Não. Pretendeu-se fazer uma tábua rasa, fazer de conta que o conflito não existiu e que não houve responsáveis. No fim do conflito, não houve um reconhecimento da existência de crianças-soldado, não houve um processo oficial de desmobilização dessas crianças. Houve tentativas de reintegrá-las no exército, mas por não se querer aceitar que elas tinham combatido como soldados, houve um processo de continuar a negar a responsabilidade individual e colectiva do que aconteceu no passado. De certa maneira, essa responsabilidade é agora virada para os actores políticos, numa tentativa de demonização do outro.

Escute a entrevista em:  http://www.dw.de/autoridades-de-moçambique-tornaram-invisíveis-os-traumas-de-guerra/a-17203529

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Moçambique: uma simulação de guerra a dois?



Quando a RENAMO, o maior parido da oposição em Moçambique, decidiu pressionar o Governo com subtilezas belicistas, como o retorno do seu presidente as suas bases militares e os seus discursos, pensei: o país começa a assistir a uma segunda leva de democracia. Afinal as exigências que alavancavam tais posições eram válidas e tinham barbas brancas, como por exemplo a paridade eleitoral. É preciso fazer evoluir o contexto de democracia, não basta apenas conquista-la. Ou se quisermos, é preciso preencher o conceito na totalidade.

Não quero com isso dizer que os fins justificam os meios, mas não nos esqueçamos que a pseudo-democracia que Moçambique hoje vive também foi fruto de uma guerra. E disso sabe tão bem Afonso Dhlakama que até se intitula "o pai da democracia", tal como a FRELIMO acha que o povo tem uma dívida eterna para com ela pela conquista da independência.

As cores da (In)Constituição

Para o Governo e o Presidente do país, Armando Guebuza, fazerem a sua demonstração de força face a supremacia táctico-militar da RENAMO, atacou e tomou as suas bases usando como justificação a Constituição que diz que nenhum partido pode estar armado. Ora, antes das forças das armas terem sido usadas como moeda de negociação na crise política entre as duas partes a lei mãe foi desrespeitada continuamente nos últimos 21 anos sob olhar sereno e tranquilo das autoridades. Um ingenuidade ou excesso de confiança de um Governo com larga experiência de governação?

Mas podemos recuar um pouco até 1992, altura em que a RENAMO e o Governo da FRELIMO assinaram o acordo geral de paz que também veio a ditar a revisão da Constituição até hoje vigente. A actual crise militar leva-me a supor que houve falhas no acordo ou na sua implementação, caso contrário a RENAMO não continuaria armada. A desculpa de que o presidente do partido teria uma guarda armada para a sua protecção não é o mesmo que ter bases armadas.  Portanto, que nos mostrem os calcanhares de Aquiles do acordo geral da paz, ao qual as duas partes se posicionaram como cegos pelo menos para a sociedade, ao que tudo indica.

Um jogo a dois?

Conjecturar que Guebuza queira a cabeça de Dhlakama como prémio, um pouco a semelhança do que José Eduardo dos Santos fez com Jonas Savimbi em Angola é uma possibilidade mas na minha opinião um pouco remota. A RENAMO é o maior partido da oposição, com assento parlamentar, reconhecido e filiado a orientações partidárias internacionais, conduziu ao lado do Governo um acordo de paz duradouro, e participou activamente dos processos eleitorais, para além de que as suas acções, por menos pacíficas que sejam, ainda não justificam a sua "caçação" como bandido.

Também o Governo já disse que o seu objectivo não é matá-lo. Como também há quem diga que a sua cabeça já foi oferecida antes da crise, mas que terá sido recusada. Tal como se diz que o exército moçambicano o terá deixado partir em paz a quando da tomada da sua base em Sathundjira, na província central de Sofala. E que Afonso Dhlakama está gravemente ferido é um boato novo? Enfim especulações as quais não podemos fazer ouvidos de mercador, considerando a actual situação.

Mas todos estes elementos mostram-nos que só os dois podem encontrar a solução para uma crise que foi totalmente polarizada por eles, cujos meandros só eles conhecem. Não nos esqueçamos que nada se soube sobre o encontro entre eles em Nampula quando a crise deu os seus primeiros sinais. Ou seja, o destino do país está refém de Armando Guebuza e Afonso Dhlakama.


 A (im)possibilidade de um "ménage à trois"...

Enquanto isso os partidos políticos, a sociedade civil e outros se tornaram invisíveis, por conveniência ou por impotência. Não me esqueço que uma pequena parte da comunidade tenta mediar a tensão nos bastidores. É precisamente esta constatação que evidencia a imaturidade democrática, de cidadania e talvez da ausência da base; a consciência. Ou então é melhor não chama-la ao de cima. Enquanto isso É caso para dizer que "o deixa andar" é mesmo uma realidade até para combater ao que alguns chama de "gebuzismo" e o próprio Presidente sabe disso, por isso...


Isso mostra também que o país ainda é uma espécie de selva, onde reina o salve-se quem puder, onde cada um ainda está preocupado em satisfazer as suas necessidades elementares, e outros até as suas conquistas políticas, que para alguns são o passaporte para destinos que só eles e o diabo conhecem... Numa altura em que o país está quase a arder, os partidos políticos estão mais preocupados com eleições em vez de apagarem o fogo do recinto que acolherá tais eleições. Ou seja, são situações que não se coadunam, as posições não são convergentes.

Um país (des)governado?

O Governo mostra que não quando pela primeira vez depois de vários confrontos entre as partes aparece em primeira mão a mostrar os seus feitos: a tomada de Sathundjira, a base da RENAMO. Quando os chefes dos postos admnistrativos unanimemente garantem que a vida nos bastiões da RENAMO seguem dentro da normalidade, contrariando relatos de testemunhos nos locais. Quando a polícia, que normalmente não concede entrevistas por telefone, porque não vem as caras dos jornalistas e estes podem deturpar as suas palavras..., contam tudo, como se estivesse a ler um comunicado, dispensando as perguntas. Tal como essa polícia omite, no seu comunicado, a detenção de membros da RENAMO. Quando o primeiro ministro de Moçambique visita Angola e em conferência de imprensa garante que o país vive uma situação de estabilidade. Tudo isso ou é uma tentativa de subestimar a crise e a força da RENAMO,  ou de minimizar a situação, ou então de manifestar que está tudo sob controlo, o que todos sabem que não corres ponde a verdade.

Analises (im)parciais legitimamente humanas

Várias vezes as analises da situação chegam a ser desprovidas de imparcialidade, objectividade e até mesmo desprovidas de analise, mas é uma imparcialidade humana e legítima. Perguntar a um analista na área de paz e conflito se há possibilidade dos confrontos se estenderem a outras regiões, principalmente para o norte onde a RENAMO tem também fortes apoios, e ouvir uma resposta negativa quando qualquer moçambicano sabe que seria uma forte possibilidade aconteceu, por exemplo. E a desculpa era a garantia que o presidente do partido deu de que os seus homens não pegariam em armas. Quantas vezes ouvimos esses discursos paralelamante a acções contrárias?

Carrot and stick

É a estratégia usada pelos polarizadores da crise. De dia dizem sim a paz, mas de noite dão gosto aos seus apetites belicistas. Se os dois principais actores aplicam as mesmas jogadas de forma sistemática, então estamos longe de uma solução pacífica que já as mais de 20 rondas negociais nos mostraram.

 (Texto por concluir, volto em breve.)

sábado, 2 de novembro de 2013

Para quando a libertação de Nito Alves?

 A Amnistia Internacional lançou nesta terça-feira (29.10) uma campanha para a libertação de Nito Alves, detido em Angola em Setembro último, por supostamente difamar e ultrajar o Presidente do país, José Eduardo dos Santos. De acordo com a ONG de defesa dos direitos humanos a detenção é ilegal e também o jovem está sujeito a péssimas condições de higiene na cadeia. Entrevistou para a DW África Anne Muluka Miti da ONG.
 

 
Nádia Issufo (NI): Em que consiste esta campanha da AI?

Anne Muluka Miti (AMM): Trata-se de uma campanha pela libertação de Nito Alves, que foi detido em setembro. Primeiro foi acusado de difamação e agora é acusado de ultraje ao Presidente por causa das camisolas que mandou fazer. A Amnistia Internacional pensa que o jovem é um prisioneiro de consciência, que foi detido apenas pela expressão pacífica da sua opinião. Estamos preocupados com a sua detenção na Comarca Central [de Luanda] e também por estar detido juntamente com adultos, porque ele é um jovem de 17 anos e está na mesma cela com adultos.

NI: O estado de saúde de Nito Alves é mau, dadas as condições precárias de higiene no local onde se encontra detido. A AI já fez algum apelo para que lhe seja dada, pelo menos, assistência médica?
 
AMM: A AI também está preocupada com a situação de higiene e as condições da prisão. Estamos a pedir pessoal médico para ele e também acesso à família e aos advogados. Desde que foi detido em setembro e até ao dia 6 de outubro, quase três semanas, ele não teve acesso à família. Essa também é uma violação dos direitos humanos. E uma pessoa detida também tem direito de acesso a um médico. 

NI: Foram respeitados os procedimentos para que o caso vá a julgamento?

AMM: Houve alguns procedimentos que não foram respeitados. Primeiro, ele foi detido sem mandato de captura. Não tinha aceso à família nem a um advogado. É muito importante que uma pessoa acusada tenha acesso a um advogado no início da detenção e ele não tinha acesso a um advogado. Essa é uma violação dos direitos humanos: A Amnistia também está preocupada porque ele foi primeiro acusado de difamação, que não devia ser um caso criminal, devia ser um caso civil. Agora a acusação é ultraje ao Presidente, mas ainda continuamos preocupados porque esta é uma violação do direito de liberdade de expressão. 

NI: Como é que a AI vê esta detenção? Será que é uma espécie de chamada de atenção para os potenciais jovens que queiram seguir o exemplo de Nito Alves?
 
AMM: Achamos que esta detenção é uma detenção irregular, que viola o direito de liberdade de expressão. E existe o risco de que outros jovens também não possam ter esse direito de expressão por causa deste caso.

NI: Na opinião da AI, que motivos terão levado as autoridades angolanas a agir de forma tão severa em relação a Nito Alves?

AMM: As camisolas que Nito Alves pediu para serem feitas tinham algumas palavras contra o Presidente. Por isso, foi acusado de difamação contra o Presidente. Para a AI, houve um motivo político para a detenção do jovem, para suprimir o direito à liberdade de expressão. Trata-se de uma violação dos direitos humanos porque todas as pessoas têm o direito à liberdade de expressão pacífica e Nito Alves fez isto pacificamente.

Escute a entrevista em: http://www.dw.de/amnistia-internacional-pede-libertação-do-angolano-nito-alves/a-17197276

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ataque à Satungira representa quebra do Acordo de Paz, interpreta a RENAMO


No passado dia 22, um dia depois do ataque do exército moçambicano à Satunjira, a RENAMO garantiu a que a situação no centro do país é de uma calma aparente, mas acreditava que tudo pode acontecer. Entrevistei para a DW África o seu porta-voz, Fernando Mazanga, sobre a violação do acordo geral de paz de 1992, assinado entre o seu partido o Governo da FRELIMO, anunciada pela RENAMO no dia 21:



Afonso Dhlakama, presidente da RENAMO


Nádia Issufo (NI): O retorno à guerra já é uma realidade com o fim do Acordo Geral de Paz, anunciado pela RENAMO?

 Fernando Mazanga (FM): O ataque à base do presidente Afonso Dhlakama é uma declaração de guerra. Quando se chega a usar o exército estamos perante uma guerra. Portanto, neste momento, o presidente Afonso Dhlakama, está a lutar pela sobrevivência, porque está a ser atacado pelo exército. O que significa que o exército está a fazer guerra contra o presidente da RENAMO. É por isso que viemos ao mundo afirmar a quebra do Acordo Geral da Paz. E o que se está a abrir é uma confrontação militar, de que nós, a todo o momento, sempre nos quisemos esquivar.

NI: Face à tomada de Satunjira por parte do exército governamental, pode-se assumir que houve uma derrota da RENAMO ou foi apenas uma batalha perdida?

FM: A RENAMO continua e vai continuar a fazer a sua atividade política ao nível de todo o país e não há nada que nos vai meter medo, não há nada que nos vai fazer recuar. Nós continuaremos firmes no ideal de Afonso Dhlakama, no ideal de André Matsangaissa, que estávamos a celebrar.
Nós já havíamos abandonado questões militares quando assinámos o Acordo Geral de Paz. E por via disso é que o Presidente Afonso Dhlakama dizia ultimamente que as nossas armas não são para fazer a guerra. As armas que estão com os seguranças da RENAMO são para nos defendermos daqueles que, em pleno século XXI, ainda acreditam no seu uso para imporem questões ideológicas.


NI: Disse que Afonso Dhlakama já não tem controlo sobre os seus homens. Confirma isso?

FM: Sim, porque quando alguém sai do local onde tinha o controlo da situação e de todos, então passa para uma situação de falta de controlo. Neste momento, não há ninguém que possa obedecer a seja qual for a ordem, mesmo que seja dada pelo presidente Afonso Dhlakama, justamente porque vão dizendo que, 'mesmo a ele, estão a procurar matá-lo. Como é que não nos hão de querer matar a nós?' A lei da sobrevivência faz com que as pessoas ajam pelo seu instinto de defesa.

NI: A tomada de Satunjira realiza-se em simultâneo com a presidência aberta do Presidente Armando Guebuza a alguns distritos da província de Sofala. Para si, isso foi coincidência ou algo premeditado?

FM: Foi algo premeditado. E continuo a acreditar que o pecado do presidente Afonso Dhlakama para ser atacado desta forma foi o facto de, no dia 17 [de outubro], ter anunciado que desafiava o Presidente da República a deixar de colocar condicionalismos para se atravessar o troço Save-Muxungué. E ele, presidente Afonso Dhlakama, dizia que 'eu, a partir de segunda-feira, 21 de outubro, declaro que o troço Save-Muxungué está livre para circulação de pessoas e bens. A RENAMO jamais fará uma incursão militar'. E desafiava o Presidente da República a fazer o mesmo.

 
NI: Qual é a situação agora na região de Satunjira, Gorongosa?

FM: Neste momento, o que sabemos é que a população está em pânico e em debandada, [devido ao clima de incerteza]. Neste momento, da nossa parte, não há nenhuma ação, por enquanto. O presidente Afonso Dhlakama garantiu-nos que ele, eventualmente, poderia não retaliar se efetivamente o Presidente da República mostrar interesse em resolver este assunto pacificamente. Agora, como dissemos, ele já não comanda as suas forças a 100%. Se calhar, elas poderão querer agir em retaliação ou em defesa própria.
Por isso, a situação em Satunjira é incaracterística. Reina uma paz aparente, uma vez que, por parte da RENAMO, não há nenhuma atividade militar que esteja a ser feita. Simplesmente quem está lá são as forças de defesa e segurança, que ocuparam e atacaram [a base em] Satunjira.

 Escute a entrevista em: http://www.dw.de/ataque-à-base-da-renamo-é-declaração-de-guerra/a-17175073

Ataques no centro de Moçambique podem alastrar-se a outras zonas?

Em Moçambique o principal foco de tensão militar, na região centro, parece ter sido sufocado pelo exército governamental. A RENAMO, maior partido da oposição, já disse que não controla os seus homens, depois do ataque do exército governamental a Satunjira na última semana. Entretanto a RENAMO tem apoio também no norte do país. Será que eventuais ataques da RENAMO noutras regiões de Moçambique podem acontecer em resultado deste sufoco? No dia 28 deste mês, antes dos confrontos em Nampula,  Em entrevista a DW África coloquei esta questão ao especialista moçambicano em paz e resolução de conflitos, Alfiado Zunguza, que respondeu com otimismo:


Alfiado Zunguza (AZ): Não há essa possibilidade, a não ser que esses ataques surjam por iniciativas individuais, de grupos isolados.

Nádia Issufo (NI): Mas através de uma liderança, de uma orientação do líder da RENAMO ou das altas patentes militares da RENAMO, acha que isto pode acontecer?

AZ: Não, porque o próprio Afonso Dhlakama disse que não iria retaliar por ter sido atacado e ter sido ocupada a base de Satunjira.

NI: A RENAMO já disse isso muitas vezes. Entretanto, vários ataques aconteceram. No sábado (26.10) houve um novo ataque – embora não se confirme que seja da RENAMO, há fortes suspeitas que homens da RENAMO tenham estado envolvidos. Pondo de parte esse discurso da RENAMO, não há essa possibilidade?

AZ: Não. É possível que exista um resquício de um grupo na zona de Muxungué, que pode estar ou não sob o comando direto de Afonso Dhlakama e de outras forças que vêm desencadeando essas ações. Trata-se de uma zona que já era problemática muito antes de se ocupar Satunjira. Agora, provavelmente, ainda existem algumas dessas forças que atuem por iniciativa própria, mas circunscritas a essa zona. Os únicos sítios onde há tropas da RENAMO, armadas, que sejam conhecidos, são nas zonas que mencionei – em Nampula e na zona de Muxungué. Além dos homens que estão atualmente em fuga com o próprio líder.
 Não vejo que seja possível termos ataques no resto do país pelo simples facto de se ter ocupado Satunjira. Aliás, a própria RENAMO disse que isso não vai acontecer. E acredito que outros comandantes da hierarquia da própria RENAMO não irão dar nenhuma ordem para que se façam ataques esporádicos ao nível do país. Se não já os teríamos a esta altura. Esse lapso de tempo indica que há uma certa estabilidade e a situação vai-se normalizar nos próximos dias.

NI: O exército governamental registou baixas em todos os confrontos com os homens da RENAMO. Só no último confronto, na tomada de Satunjira, o exército registou uma "vitória". Acha que o exército governamental está à altura de responder ou evitar eventuais ataques ao longo do país?

AZ: É um pouco difícil prever isso, pois, caso houvesse ataques, não seriam de unidades maiores regulares, que requereriam, por exemplo, a movimentação de uma unidade das forças de segurança para lidar com essa força. Seriam ataques de tipo terrorista, esporádicos. Em que os atacantes surpreendem, fazem o ataque e desaparecem.
Neste caso, seria extremamente difícil aventar a hipótese de sucesso na resposta das forças. Nesta altura, elas estão mais mobilizadas para as zonas já conhecidas: a zona de Satunjira, Maringué, Gorongosa e Muxungué. Se houver um ataque fora dessas zonas, as forças não estão preparadas e não reagiriam imediatamente. Mas isto seria provavelmente um alerta para as próprias forças se poderem precaver para a eventualidade de ataques noutros pontos. E, assim, desenhar um projeto mais preventivo, de trabalho com as comunidades, com as próprias lideranças da RENAMO em vários pontos do país, para que se evite uma situação de ataques militares, que poderiam propiciar uma reação das Forças de Defesa e Segurança contra esses grupos.

Escute a entrevista em: http://www.dw.de/ataques-no-centro-de-moçambique-podem-alastrar-se-a-outras-zonas/a-17188560

O silêncio do MDM nas negocições entre RENAMO e Governo

 Em Moçambique a crise político-militar é assunto discutido apenas entre o Governo da FRELIMO e a RENAMO, maior partido da  oposição. Da oposição quase nada se ouve sobre um contributo para resolver o assunto. O MDM é a terceira maior força do país e com assento parlamentar para além das partes antagonicas. Entretanto, as eleições autárquicas estão à porta, 20 de novembro, e muitas dúvidas persistem sobre a sua realização.  Entrevistei para a DW  África o porta voz do MDM, Sande Carmona.

Legenda: Davis Simango, Presidente do MDM

Nádia Issufo (NI): Qual a posição do MDM sobre a presente tensão entre o Governo e a RENAMO?

Sande Carmona (SC): O MDM lamenta a perda de vidas humanas que está a acontecer em Moçambique, relativamente ao que tem acontecido no confronto entre as tropas governamentais e a RENAMO. A maioria dos que estão a perecer são inocentes e civis. O MDM condena veementemente essa situação de confronto. O uso da força está a ser cada vez mais importante para os dois lados, esquecendo-se que é só com palavras que se pode encontrar o bom senso na diferença.

NI: Esta tensão é dominada pela RENAMO e pelo Governo. A oposição está de fora. Ela não tem um contributo a dar nesta crise?

SC: Desde a primeira hora que o MDM esteve atento, a acompanhar a evolução da situação. E sempre instámos o Governo, o Presidente da República e a liderança da RENAMO para que fossem coerentes, para evitar que as situações pudessem chegar onde chegaram. Fizemos várias vezes comunicados de imprensa, fizemos tudo o que era possível para que entendessem que Moçambique não precisa de guerra. O país precisa de paz para recuperar o tempo perdido no âmbito do desenvolvimento económico e social. 

NI: Mas em termos concretos, neste processo de negociações, o que fez o MDM? Tomou alguma iniciativa para participar nas negociações?

SC: Sempre dissemos que as negociações tinham que envolver todas as forças vivas de Moçambique, para permitir a existência de uma espécie de mediação. E predispusemo-nos a estar presentes nesta negociação para darmos o nosso contributo. Mas, infelizmente, não fomos entendidos ou ouvidos.
  
NI:As eleições marcadas para 20 de novembro estão à porta, no meio desta crise. Geralmente estas situações são "aproveitadas" pelas forças políticas para construírem caminho com vista à vitória. O MDM pensa fazer este aproveitamento político, de alguma maneira?

SC: Não, o MDM não pretende fazer aproveitamento político nesse âmbito, uma vez que o MDM é um partido de paz. Muito pelo contrário, o MDM faz tudo para que o povo moçambicano viva tranquilamente e tenha oportunidade de escolher os melhores filhos de Moçambique para dirigir os destinos deste país.

Uma melhor escolha só é possível quando há paz. Quando o povo não se sente intimidado e vai às urnas realmente consciente de que é preciso encontrar as pessoas certas para [espelhar] aquele que é o pensamento do povo moçambicano.

NI: No Parlamento moçambicano estão a RENAMO, a FRELIMO e o MDM. Ou seja, para além das duas forças antagónicas nesta crise, está o MDM. O que é o partido faz no Parlamento para ajudar a pôr fim a esta tensão?

SC: Infelizmente, o MDM tem um número reduzido, em termos de deputados à Assembleia da República. No tempo que tem na Assembleia da República, o MDM faz tudo e mais alguma coisa para fazer entender as duas bancadas antagónicas que é através do diálogo que se pode alcançar a paz, é através do diálogo que as pessoas têm de se entender.

Escute a entrevista em:  http://www.dw.de/mdm-fica-fora-do-diálogo-entre-renamo-e-governo-moçambicano/a-17190037

Como a RENAMO se pode financiar militarmente?

 Em Moçambique desconhece-se o tamanho do arsenal da RENAMO, maior partido da oposição. Mas face a frequência dos confrontos entre os seus ex-guerrilheiros e o exército governamental várias questões se levantam, como por exemplo, se a RENAMO pode ou não obter financiamento para a aquisição de mais armamento. Entrevistei para a DW África Calton Cadeado, analista do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais em Moçambique:


Nádia Issufo (NI): Como é que a RENAMO se financia?

Calton Cadeado (CC): Em primeiro lugar, é preciso distinguir a RENAMO política da RENAMO militar. Politicamente, sempre soubemos que a RENAMO se abastece a partir dos assentos que tem no Parlamento. É essa a fonte de dinheiro que todos conhecemos. Mas, provavelmente, há que equacionar a possibilidade de parcerias que a RENAMO estabeleceu com outros atores estatais e não estatais que, infelizmente, ainda não são do conhecimento de todos nós. Nós podemos especular com base na história, que nos diz que a RENAMO foi um grupo armado e que, provavelmente, não se desarmou como se esperava. Há a possibilidade de ela ativar alguns esconderijos de materiais bélicos que a RENAMO nunca fez desaparecer.


NI: O tráfico de marfim e pedras preciosas poderia também ser uma fonte de financiamento?

CC: Sem dúvida, também pode ser. Como se sabe hoje, o líder da RENAMO tem algum empreendimento comercial nessa área. Mas não sei se serviria de facto para financiar a compra de material bélico ou se se destinava a fins pessoais, no dia-a-dia, como cidadão. Quanto à questão do tráfico de marfim, não temos nenhuma evidência de que a RENAMO - como um partido, como uma ala militar - esteja envolvida em negócios dessa natureza. É um negócio ilegal aqui em Moçambique. Se quisermos, podemos fazer essa associação. Pode ser uma associação forçada, pode prejudicar até a imagem da RENAMO. Mas, provavelmente, a questão do negócio de pedras preciosas, que todos nós sabemos que é legal, também estão a fazer. E também o dinheiro que vem da Assembleia da República.

NI: Acha que a RENAMO poderia recorrer a assaltos a quartéis do exército ou ao paiol para abastecer o seu arsenal?

CC: Sem dúvida. Para mim, os ataques que a RENAMO efetuou nos últimos tempos, direcionados claramente às forças de defesa e segurança, também podem ser entendidos como uma forma de demonstração da sua incapacidade militar e a procura de material de guerra para continuar a ter esse poder de dissuasão, de ameaça, que sempre teve ao longo dos 21 anos de paz. Quando me apercebi que a RENAMO estava a fazer ataques às forças de defesa e segurança, apercebi-me de que era com a intenção de ir buscar equipamentos de guerra. E o ataque ao paiol, apesar de a RENAMO nunca ter confirmado a autoria, foi feito claramente para ir buscar material bélico.

 
NI: Haveria algum país ou organização internacional interessados em financiar a RENAMO em termos de armamento?

CC: Eu diria que sim ou absolutamente que não. Aqui à volta de Moçambique temos Estados que são claramente aliados do governo moçambicano. A probabilidade de esses Estados financiarem uma guerra ou os apoiantes da RENAMO ou qualquer outro grupo que possa emergir aqui em Moçambique é extremamente prejudicial para esses países. E aqui funciona a teoria da interdependência, em matéria de segurança. A tal ponto, que a África do Sul, por exemplo, está quase tão preocupada com a segurança de Moçambique como com a sua própria segurança. Principalmente por causa dos investimentos sul-africanos aqui em Moçambique.
 
NI: Fora os países da SADC, haveria outros países interessados em financiar a RENAMO?

CC: Militarmente, tenho dúvidas. Vamos olhar por exclusão ou aproximação aos que mais nos aparecem. Os Estados Unidos da América têm interesses muito fortes em Moçambique e que neste momento estão a ser satisfeitos com a estabilidade que nós temos. A França, nos últimos dias, apareceu com grande protagonismo na imprensa internacional e moçambicana por causa do negócio dos barcos que estamos a fazer. É muito dinheiro e muita aproximação dos Estados. São países grandes que, aparentemente, conhecemos como os "suspeitos do costume" que neste momento não teriam força anímica ou psicológica para se envolverem numa guerra em Moçambique, um lugar distante, e num contexto de crise económica e financeira nos seus países. E não estão a lutar por um recurso estratégico porque estão a beneficiar da exploração e pesquisa desses mesmos recursos.