quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ataque à Satungira representa quebra do Acordo de Paz, interpreta a RENAMO


No passado dia 22, um dia depois do ataque do exército moçambicano à Satunjira, a RENAMO garantiu a que a situação no centro do país é de uma calma aparente, mas acreditava que tudo pode acontecer. Entrevistei para a DW África o seu porta-voz, Fernando Mazanga, sobre a violação do acordo geral de paz de 1992, assinado entre o seu partido o Governo da FRELIMO, anunciada pela RENAMO no dia 21:



Afonso Dhlakama, presidente da RENAMO


Nádia Issufo (NI): O retorno à guerra já é uma realidade com o fim do Acordo Geral de Paz, anunciado pela RENAMO?

 Fernando Mazanga (FM): O ataque à base do presidente Afonso Dhlakama é uma declaração de guerra. Quando se chega a usar o exército estamos perante uma guerra. Portanto, neste momento, o presidente Afonso Dhlakama, está a lutar pela sobrevivência, porque está a ser atacado pelo exército. O que significa que o exército está a fazer guerra contra o presidente da RENAMO. É por isso que viemos ao mundo afirmar a quebra do Acordo Geral da Paz. E o que se está a abrir é uma confrontação militar, de que nós, a todo o momento, sempre nos quisemos esquivar.

NI: Face à tomada de Satunjira por parte do exército governamental, pode-se assumir que houve uma derrota da RENAMO ou foi apenas uma batalha perdida?

FM: A RENAMO continua e vai continuar a fazer a sua atividade política ao nível de todo o país e não há nada que nos vai meter medo, não há nada que nos vai fazer recuar. Nós continuaremos firmes no ideal de Afonso Dhlakama, no ideal de André Matsangaissa, que estávamos a celebrar.
Nós já havíamos abandonado questões militares quando assinámos o Acordo Geral de Paz. E por via disso é que o Presidente Afonso Dhlakama dizia ultimamente que as nossas armas não são para fazer a guerra. As armas que estão com os seguranças da RENAMO são para nos defendermos daqueles que, em pleno século XXI, ainda acreditam no seu uso para imporem questões ideológicas.


NI: Disse que Afonso Dhlakama já não tem controlo sobre os seus homens. Confirma isso?

FM: Sim, porque quando alguém sai do local onde tinha o controlo da situação e de todos, então passa para uma situação de falta de controlo. Neste momento, não há ninguém que possa obedecer a seja qual for a ordem, mesmo que seja dada pelo presidente Afonso Dhlakama, justamente porque vão dizendo que, 'mesmo a ele, estão a procurar matá-lo. Como é que não nos hão de querer matar a nós?' A lei da sobrevivência faz com que as pessoas ajam pelo seu instinto de defesa.

NI: A tomada de Satunjira realiza-se em simultâneo com a presidência aberta do Presidente Armando Guebuza a alguns distritos da província de Sofala. Para si, isso foi coincidência ou algo premeditado?

FM: Foi algo premeditado. E continuo a acreditar que o pecado do presidente Afonso Dhlakama para ser atacado desta forma foi o facto de, no dia 17 [de outubro], ter anunciado que desafiava o Presidente da República a deixar de colocar condicionalismos para se atravessar o troço Save-Muxungué. E ele, presidente Afonso Dhlakama, dizia que 'eu, a partir de segunda-feira, 21 de outubro, declaro que o troço Save-Muxungué está livre para circulação de pessoas e bens. A RENAMO jamais fará uma incursão militar'. E desafiava o Presidente da República a fazer o mesmo.

 
NI: Qual é a situação agora na região de Satunjira, Gorongosa?

FM: Neste momento, o que sabemos é que a população está em pânico e em debandada, [devido ao clima de incerteza]. Neste momento, da nossa parte, não há nenhuma ação, por enquanto. O presidente Afonso Dhlakama garantiu-nos que ele, eventualmente, poderia não retaliar se efetivamente o Presidente da República mostrar interesse em resolver este assunto pacificamente. Agora, como dissemos, ele já não comanda as suas forças a 100%. Se calhar, elas poderão querer agir em retaliação ou em defesa própria.
Por isso, a situação em Satunjira é incaracterística. Reina uma paz aparente, uma vez que, por parte da RENAMO, não há nenhuma atividade militar que esteja a ser feita. Simplesmente quem está lá são as forças de defesa e segurança, que ocuparam e atacaram [a base em] Satunjira.

 Escute a entrevista em: http://www.dw.de/ataque-à-base-da-renamo-é-declaração-de-guerra/a-17175073

Ataques no centro de Moçambique podem alastrar-se a outras zonas?

Em Moçambique o principal foco de tensão militar, na região centro, parece ter sido sufocado pelo exército governamental. A RENAMO, maior partido da oposição, já disse que não controla os seus homens, depois do ataque do exército governamental a Satunjira na última semana. Entretanto a RENAMO tem apoio também no norte do país. Será que eventuais ataques da RENAMO noutras regiões de Moçambique podem acontecer em resultado deste sufoco? No dia 28 deste mês, antes dos confrontos em Nampula,  Em entrevista a DW África coloquei esta questão ao especialista moçambicano em paz e resolução de conflitos, Alfiado Zunguza, que respondeu com otimismo:


Alfiado Zunguza (AZ): Não há essa possibilidade, a não ser que esses ataques surjam por iniciativas individuais, de grupos isolados.

Nádia Issufo (NI): Mas através de uma liderança, de uma orientação do líder da RENAMO ou das altas patentes militares da RENAMO, acha que isto pode acontecer?

AZ: Não, porque o próprio Afonso Dhlakama disse que não iria retaliar por ter sido atacado e ter sido ocupada a base de Satunjira.

NI: A RENAMO já disse isso muitas vezes. Entretanto, vários ataques aconteceram. No sábado (26.10) houve um novo ataque – embora não se confirme que seja da RENAMO, há fortes suspeitas que homens da RENAMO tenham estado envolvidos. Pondo de parte esse discurso da RENAMO, não há essa possibilidade?

AZ: Não. É possível que exista um resquício de um grupo na zona de Muxungué, que pode estar ou não sob o comando direto de Afonso Dhlakama e de outras forças que vêm desencadeando essas ações. Trata-se de uma zona que já era problemática muito antes de se ocupar Satunjira. Agora, provavelmente, ainda existem algumas dessas forças que atuem por iniciativa própria, mas circunscritas a essa zona. Os únicos sítios onde há tropas da RENAMO, armadas, que sejam conhecidos, são nas zonas que mencionei – em Nampula e na zona de Muxungué. Além dos homens que estão atualmente em fuga com o próprio líder.
 Não vejo que seja possível termos ataques no resto do país pelo simples facto de se ter ocupado Satunjira. Aliás, a própria RENAMO disse que isso não vai acontecer. E acredito que outros comandantes da hierarquia da própria RENAMO não irão dar nenhuma ordem para que se façam ataques esporádicos ao nível do país. Se não já os teríamos a esta altura. Esse lapso de tempo indica que há uma certa estabilidade e a situação vai-se normalizar nos próximos dias.

NI: O exército governamental registou baixas em todos os confrontos com os homens da RENAMO. Só no último confronto, na tomada de Satunjira, o exército registou uma "vitória". Acha que o exército governamental está à altura de responder ou evitar eventuais ataques ao longo do país?

AZ: É um pouco difícil prever isso, pois, caso houvesse ataques, não seriam de unidades maiores regulares, que requereriam, por exemplo, a movimentação de uma unidade das forças de segurança para lidar com essa força. Seriam ataques de tipo terrorista, esporádicos. Em que os atacantes surpreendem, fazem o ataque e desaparecem.
Neste caso, seria extremamente difícil aventar a hipótese de sucesso na resposta das forças. Nesta altura, elas estão mais mobilizadas para as zonas já conhecidas: a zona de Satunjira, Maringué, Gorongosa e Muxungué. Se houver um ataque fora dessas zonas, as forças não estão preparadas e não reagiriam imediatamente. Mas isto seria provavelmente um alerta para as próprias forças se poderem precaver para a eventualidade de ataques noutros pontos. E, assim, desenhar um projeto mais preventivo, de trabalho com as comunidades, com as próprias lideranças da RENAMO em vários pontos do país, para que se evite uma situação de ataques militares, que poderiam propiciar uma reação das Forças de Defesa e Segurança contra esses grupos.

Escute a entrevista em: http://www.dw.de/ataques-no-centro-de-moçambique-podem-alastrar-se-a-outras-zonas/a-17188560

O silêncio do MDM nas negocições entre RENAMO e Governo

 Em Moçambique a crise político-militar é assunto discutido apenas entre o Governo da FRELIMO e a RENAMO, maior partido da  oposição. Da oposição quase nada se ouve sobre um contributo para resolver o assunto. O MDM é a terceira maior força do país e com assento parlamentar para além das partes antagonicas. Entretanto, as eleições autárquicas estão à porta, 20 de novembro, e muitas dúvidas persistem sobre a sua realização.  Entrevistei para a DW  África o porta voz do MDM, Sande Carmona.

Legenda: Davis Simango, Presidente do MDM

Nádia Issufo (NI): Qual a posição do MDM sobre a presente tensão entre o Governo e a RENAMO?

Sande Carmona (SC): O MDM lamenta a perda de vidas humanas que está a acontecer em Moçambique, relativamente ao que tem acontecido no confronto entre as tropas governamentais e a RENAMO. A maioria dos que estão a perecer são inocentes e civis. O MDM condena veementemente essa situação de confronto. O uso da força está a ser cada vez mais importante para os dois lados, esquecendo-se que é só com palavras que se pode encontrar o bom senso na diferença.

NI: Esta tensão é dominada pela RENAMO e pelo Governo. A oposição está de fora. Ela não tem um contributo a dar nesta crise?

SC: Desde a primeira hora que o MDM esteve atento, a acompanhar a evolução da situação. E sempre instámos o Governo, o Presidente da República e a liderança da RENAMO para que fossem coerentes, para evitar que as situações pudessem chegar onde chegaram. Fizemos várias vezes comunicados de imprensa, fizemos tudo o que era possível para que entendessem que Moçambique não precisa de guerra. O país precisa de paz para recuperar o tempo perdido no âmbito do desenvolvimento económico e social. 

NI: Mas em termos concretos, neste processo de negociações, o que fez o MDM? Tomou alguma iniciativa para participar nas negociações?

SC: Sempre dissemos que as negociações tinham que envolver todas as forças vivas de Moçambique, para permitir a existência de uma espécie de mediação. E predispusemo-nos a estar presentes nesta negociação para darmos o nosso contributo. Mas, infelizmente, não fomos entendidos ou ouvidos.
  
NI:As eleições marcadas para 20 de novembro estão à porta, no meio desta crise. Geralmente estas situações são "aproveitadas" pelas forças políticas para construírem caminho com vista à vitória. O MDM pensa fazer este aproveitamento político, de alguma maneira?

SC: Não, o MDM não pretende fazer aproveitamento político nesse âmbito, uma vez que o MDM é um partido de paz. Muito pelo contrário, o MDM faz tudo para que o povo moçambicano viva tranquilamente e tenha oportunidade de escolher os melhores filhos de Moçambique para dirigir os destinos deste país.

Uma melhor escolha só é possível quando há paz. Quando o povo não se sente intimidado e vai às urnas realmente consciente de que é preciso encontrar as pessoas certas para [espelhar] aquele que é o pensamento do povo moçambicano.

NI: No Parlamento moçambicano estão a RENAMO, a FRELIMO e o MDM. Ou seja, para além das duas forças antagónicas nesta crise, está o MDM. O que é o partido faz no Parlamento para ajudar a pôr fim a esta tensão?

SC: Infelizmente, o MDM tem um número reduzido, em termos de deputados à Assembleia da República. No tempo que tem na Assembleia da República, o MDM faz tudo e mais alguma coisa para fazer entender as duas bancadas antagónicas que é através do diálogo que se pode alcançar a paz, é através do diálogo que as pessoas têm de se entender.

Escute a entrevista em:  http://www.dw.de/mdm-fica-fora-do-diálogo-entre-renamo-e-governo-moçambicano/a-17190037

Como a RENAMO se pode financiar militarmente?

 Em Moçambique desconhece-se o tamanho do arsenal da RENAMO, maior partido da oposição. Mas face a frequência dos confrontos entre os seus ex-guerrilheiros e o exército governamental várias questões se levantam, como por exemplo, se a RENAMO pode ou não obter financiamento para a aquisição de mais armamento. Entrevistei para a DW África Calton Cadeado, analista do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais em Moçambique:


Nádia Issufo (NI): Como é que a RENAMO se financia?

Calton Cadeado (CC): Em primeiro lugar, é preciso distinguir a RENAMO política da RENAMO militar. Politicamente, sempre soubemos que a RENAMO se abastece a partir dos assentos que tem no Parlamento. É essa a fonte de dinheiro que todos conhecemos. Mas, provavelmente, há que equacionar a possibilidade de parcerias que a RENAMO estabeleceu com outros atores estatais e não estatais que, infelizmente, ainda não são do conhecimento de todos nós. Nós podemos especular com base na história, que nos diz que a RENAMO foi um grupo armado e que, provavelmente, não se desarmou como se esperava. Há a possibilidade de ela ativar alguns esconderijos de materiais bélicos que a RENAMO nunca fez desaparecer.


NI: O tráfico de marfim e pedras preciosas poderia também ser uma fonte de financiamento?

CC: Sem dúvida, também pode ser. Como se sabe hoje, o líder da RENAMO tem algum empreendimento comercial nessa área. Mas não sei se serviria de facto para financiar a compra de material bélico ou se se destinava a fins pessoais, no dia-a-dia, como cidadão. Quanto à questão do tráfico de marfim, não temos nenhuma evidência de que a RENAMO - como um partido, como uma ala militar - esteja envolvida em negócios dessa natureza. É um negócio ilegal aqui em Moçambique. Se quisermos, podemos fazer essa associação. Pode ser uma associação forçada, pode prejudicar até a imagem da RENAMO. Mas, provavelmente, a questão do negócio de pedras preciosas, que todos nós sabemos que é legal, também estão a fazer. E também o dinheiro que vem da Assembleia da República.

NI: Acha que a RENAMO poderia recorrer a assaltos a quartéis do exército ou ao paiol para abastecer o seu arsenal?

CC: Sem dúvida. Para mim, os ataques que a RENAMO efetuou nos últimos tempos, direcionados claramente às forças de defesa e segurança, também podem ser entendidos como uma forma de demonstração da sua incapacidade militar e a procura de material de guerra para continuar a ter esse poder de dissuasão, de ameaça, que sempre teve ao longo dos 21 anos de paz. Quando me apercebi que a RENAMO estava a fazer ataques às forças de defesa e segurança, apercebi-me de que era com a intenção de ir buscar equipamentos de guerra. E o ataque ao paiol, apesar de a RENAMO nunca ter confirmado a autoria, foi feito claramente para ir buscar material bélico.

 
NI: Haveria algum país ou organização internacional interessados em financiar a RENAMO em termos de armamento?

CC: Eu diria que sim ou absolutamente que não. Aqui à volta de Moçambique temos Estados que são claramente aliados do governo moçambicano. A probabilidade de esses Estados financiarem uma guerra ou os apoiantes da RENAMO ou qualquer outro grupo que possa emergir aqui em Moçambique é extremamente prejudicial para esses países. E aqui funciona a teoria da interdependência, em matéria de segurança. A tal ponto, que a África do Sul, por exemplo, está quase tão preocupada com a segurança de Moçambique como com a sua própria segurança. Principalmente por causa dos investimentos sul-africanos aqui em Moçambique.
 
NI: Fora os países da SADC, haveria outros países interessados em financiar a RENAMO?

CC: Militarmente, tenho dúvidas. Vamos olhar por exclusão ou aproximação aos que mais nos aparecem. Os Estados Unidos da América têm interesses muito fortes em Moçambique e que neste momento estão a ser satisfeitos com a estabilidade que nós temos. A França, nos últimos dias, apareceu com grande protagonismo na imprensa internacional e moçambicana por causa do negócio dos barcos que estamos a fazer. É muito dinheiro e muita aproximação dos Estados. São países grandes que, aparentemente, conhecemos como os "suspeitos do costume" que neste momento não teriam força anímica ou psicológica para se envolverem numa guerra em Moçambique, um lugar distante, e num contexto de crise económica e financeira nos seus países. E não estão a lutar por um recurso estratégico porque estão a beneficiar da exploração e pesquisa desses mesmos recursos.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A "angolanização" de Moçambique

Foi isso que me passou pela cabeça assim vi as primeiras reacções do Governo face ao despoletar de acções de contestação simultâneas contra o Executivo moçambicano. Por exemplo, quando a polícia lançou jactos de água contra desmobilizados de guerra que se manifestavam pacificamente a exigir melhores pensões, quando dois jornalistas foram detidos sem motivos, quando se repetem as intimidações contra os reassentados de Cateme, no caso Vale, quando a polícia deteve alguns dos descontentes, a detenção ilegal do líder dos médicos grevistas, entre outros tantos.

Apesar dos inúmeros problemas achava que Moçambique estava a registar alguns progressos, e até atrevia-me a colocar o país "acima" de Angola em termos de pseudo-democracia, consolidação da pseudo-sociedade civil e liberdade de expressão. Não que estivessemos há anos luz de Angola, mas a alguns kilometros. Só que em três segundos Moçambique conseguiu retroceder tanto, que desconfio que em breve passarei a ter Angola como um exemplo a ser seguido por Moçambique.

Há momentos até em que me pergunto se os presidentes e governos dos dois países não foram feitos da mesma massa, tamanhas são as semelhanças entre eles. Quantas vezes Armando Guebuza se dirigiu aos moçambicanos nos momentos mais difíceis? E arrogância ofensiva com que alguns ministros falam ao povo? Um dos pontos em que Armando Guebuza e José Eduardo dos Santos não são iguais, é nas viagens. Enquanto o primeiro continua as suas viagens, acompanhados de homens de negócios, em momento críticos do seu país, o segundo quase nunca sai da cidade alta. Para mim o cumprimento da agenda de Guebuza, no que diz respeito as suas viagens, parecem uma tentativa de minimizar os descontentamentos do seu povo contra o seu Governo. Mais ainda, perceber que este tipo atitude é manifestada até ao nível mais baixo da estrutura do Governo moçambicano mostra o quanto o partido FRELIMO tem tarimba. Desde o director provincial ao chefe de um posto administrativo o discurso em situações de crise é o mesmo,  o que me faz perceber que o partidão é mesmo "macaco velho".

Ms desconfio que em breve o titulo deste texto estará desactualizado, pois o caminho que Moçambique segue se mostra tortuoso, mesmo não sabendo se toma o caminho certo ou não.

Por seu lado, Angola, mesmo que seja para o inglês ver e por interesse, tem mostrado sinais de alguma liberdade de imprensa, o Presidente que pouco fala, tem se dirigido mais ao mundo usando a media, etc.

É  caso para dizer que os dois países estão a fazer a inversão de posições?



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ditadura não pode ser questionada em Angola

Angola vive uma insegurança política muito grave. Esta é a opinião do analista angolano Nelson Pestana face as repressões da polícia contra manifestantes e ao recrudescimento da violência partidária. Pestana prevê que os descontentes não parem, mesmo com a repressão. Leia a entrevista concedida a DW:


Nádia Issufo: Esta situação pode dar lugar a lago mais grave, ou pode ser resolvido com diálogo, se é que há capacidade?

Nelson Pestana: Há manifestações de insegurança política muito graves ultimamente, e em Luanda é recorrente esta situação. Não é o primeiro caso e tudo leva a crer que isso continuará, na medida em que a violência política no Huambo atingiu extremos muito elevados. Mas a população já não está mais disposta a aceitar o clima de medo, e por isso cada vez mais vão reivindicar os seus direitos e quebrar o signo do medo, vem para a rua e nesse sentido são reprimidos pelas autoridades de Huambo, e particularmente pelo fanatismo do partido no poder. Mas isso não acontece só no Huambo, também nas capitais há uma apetência pelos direitos de cidadania, e ai há uma dificuldade dos cidadãos em afirmar os seus direitos, porque o poder ter até hoje muita dificuldade em conviver com o direito de manifestação.


NI: Embora os casos de repressão não constituam novidade, o que se pode dizer sobre o seu estágio, houve um recrudescimento ou não?

NP: A demonstração de força feita pelo regime indicia de que está pronto a tudo se houver manifestações que ponham em causa o poder autoritário do Presidente José Eduardo dos Santos. É um sinal de que a ditadura está para ficar, e por isso ela não pode ser posta em causa através de reivindicações mesmo que ela ela tenha, do ponto de vista do poder, uma aparência inocente de ser uma mera de vigília.

NI: A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, esteve em Angola recentemente e disse que o respeito pelos direitos humanos está no bom caminho. Como avalia esta declaração tomando em conta os acontecimentos do seu país?

NP: Acho que essa declaração estava feita mesmo antes de ela vir para Angola. É verdade que ela deixou alguns recados intra-muros, temos conhecimento disso, e se calhar não quis afrontar o poder  e para continuar o diálogo fez a tal declaração. Dizer que está no bom caminho quer dizer que ainda não chegou lá. Mas de qualquer maneira o poder não está no bom caminho, está no seu caminho e o seu caminho é de um poder autoritário autocrático que vais respeitar os direitos humanos e de cidadania quando isso não chocar com os seus próprios interesses. E se chocar vai reprimi-los, disso temos a absoluta certeza. E por isso não é um bom caminho de um respeito sistemático e institucional do respeito de cidadania e dos direitos humanos.

NI: E neste contexto como vê o peso da Constituição em Angola? Afinal a base das contestações estão assentes nessa lei...

NP: A Constituição é uma boa na medida em que dá legitimidade a essas pessoas para reivindicarem e se defenderem. Nesse sentido é uma utopia a ser realizada, sobretudo os direitos fundamentais dos cidadãos. Mas a Constituição para o poder é um instrumento de poder também que ele manuseia em função dos seus próprios interesses.

Escute e leia sobre o tema em: http://www.dw.de/intimidação-da-oposição-continua-em-angola/a-16844930

terça-feira, 28 de maio de 2013

Porque o MPLA continua na internacional socialista?


Alguns partidos africanos que pertencem a internacional socialista, como o SPD alemão, sofrem uma metamorfose, perdendo algumas caracteristicas de esquerda. Tal é o caso do MPLA, o partido no poder em Angola. Mesmo assim estes partidos continuam filiados a ela.  Entrevistei para a DW  o analista e ex-vice ministro angolano das finanças, Fernando Heitor, sobre o assunto.

Nádia Issufo: Por que motivo o MPLA continua na Internacional Socialista?

Fernando Heitor (FH): E eu pergunto-me porque é que a Internacional Socialista, uma organização de grande prestígio, que se pauta por princípios democráticos, pelo respeito pelos direitos humanos, etc., aceita no seu seio partido políticos cuja prática diária não se compagina com estes princípios? Todos nós em Angola, e não só, sabemos que o próprio MPLA não tem democracia interna. Os órgãos diretivos do MPLA não são eleitos de acordo com os princípios que as democracias determinam. Não sei como é que as inscrições para essa organização internacional são feitas, não sei quais são os critérios e os requisitos.

NI: Acha que isso se deve à força que o MPLA tem a nível económico e também a nível político?

FH: O MPLA está no poder há quase meio século. Se é isto que faz com que uma instituição seja integrada numa organização como a Internacional Socialista, então estamos entendidos. Eu acho que não são tais requisitos, económicos, financeiros ou de poder político – conseguido por fórmulas que nós todos sabemos ou desconfiamos – que se integram nessas instituições. Acho que se for assim, qualquer instituição, até mafiosa, contrabandista ou o que quer que seja, desde que tenha poder financeiro, e há muitas que têm, então integram-se nessas instituições.
Parece-me que enquanto organizações do tipo da Internacional Socialista são demasiado exigentes relativamente a partido políticos de países europeus, americanos, etc., deixam de exigir o mesmo grau de requisitos, deixam de ser tão exigentes, quando se trata de países africanos, desde que estejam no poder, desde que consigam pagar as suas cotas são, enfim, admitidos com palmadinhas nas costas. Há mais tolerância. Acho que em determinadas em matérias, como os direitos humanos e a democracia, não devia haver qualquer tipo de dúvida. Devia haver exigências iguais para todos.


NI: Em Angola, a quem atribuiria agora as caraterísticas de esquerda, porque supostamente o MPLA agora não as tem?

FH: Não sei. É uma pergunta difícil. Vou ter que investigar. Mas devo dizer—lhe que a maior parte dos dirigentes dos partidos políticos nem sabe qual é a corrente que tem. Não sabe o que é esquerda, o que é centro. A partir das lideranças dos partidos políticos cuja maioria esmagadora nem sabe qual é o posicionamento, qual é o ideário político de um partido de esquerda, de um partido de centro, veja o que acontece no seio dos militantes.


NI: E os jovens manifestantes?

FH: Não há não disso. Não é só em Angola, é em quase todo os países africanos.

NI: Acha que faz sentido que organizações de base socialista, de esquerda, como a Friedrich Ebert Stiftung (FES), continuem a trabalhar com Governos que sofreram metamorfoses?




FH: Eu conheço bem a Friedrich Ebert Stiftung. Trabalhei na FES como consultor e como formador durante muitos anos cá em Angola e devo dizer que instituições dessas fazem falta, independentemente do posicionamento ideológico ou da prática governativa do partido que estiver no poder. Essas instituições trazem sempre luzes, fazem formação, trabalham com os partido políticos, com a rede das mulheres. Fazem um trabalho muito importante. Lamento muito que a FES tenha sido encerrada cá em Angola. Estava, de facto, a desenvolver um trabalho muito importante quer com os partidos políticos quer com a sociedade civil em termos genéricos.

 Escute a entrevista em: http://www.dw.de/porque-continua-o-mpla-na-internacional-socialista/a-16842205