quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Moçambique perde pontos no Índice de liberdade de imprensa da RSF

A organização francesa Repórteres sem Fronteiras lançou ontem o seu relatório anual  sobre a liberdade de imprensa no mundo. Moçambique, está na 73ª posição e desceu sete pontos. Alguns dos factores que terão desencadeado a baixa são apontados pelo jornalista e jurista moçambicano Ericino de Salema em entrevista a DW África, conduzida por mim.




Nádia Issufo: Na sua opinião o que terá contribuido para a queda da liberdade de imprensa?

Ericino de Salema: Os episódios que se registaram no ano passado, nomeadamente entre a polícia e os repórteres da CNN, os persistentes ataques do Presidente da República aos seus críticos que veiculam os seus pontos de vista através da imprensa, e os incidentes que se verificaram novamente entre os jornalistas, entre repórteres da STV em Maputo e Nampula, o que sucedeu com algumas rádios comunitárias, falo das rádios de Massequece, Xinavane e Furacongo que foram encerradas ilegalmente. Acho que tudo isso contribuiu para que Moçambique caísse sete pontos no Índice da organização Repórteres sem Fronteiras.

NI: Recentemente a mídia moçambicana disse que a FRELIMO intimidou alguns órgãos de comunicação social. Como avalia isso tomando em conta a democracia e liberdade de imprensa que supostamente o país vive?

ES: Na minha opinião não se trata da FRELIMO intimidar os jornalistas, mas sim há oficiais que procuram manipular as agendas das empresas públicas, ou empresas dominadas por capitais públicos, refiro-me ao Jornal Notícias, que sob o ponto de vista jurídico é privado, mas que tem como accionista maioritário o Banco de Moçambique, que é consultor financeiro do Governo. Esses oficiais partidários tem servido, não poucas vezes, de verdadeiros directores de informação, de órgãos como TVM, Rádio Moçambique, Jornal Notícias e Domingo. A liberdade de imprensa não existe sem liberdade de expressão e sem direito a informação.

NI: Os órgãos públicos abrangem mais gente, e ultimamente tem sido alvo de fortes críticas. Qqual é a sua percepção sobre esses órgãos, tem mais ou menos liberdade agora?

ES: É difícil perceber se estamos perante uma situação de censura ou auto-censura. o que posso dizer é que nós somos um dos países formalmente mais avançado de África, relativamente ao que a Constituição estabelece sobre o regime de independência dos jornalistas do sector público. Basta verificar que o número 5 do artigo 48 sintetiza que os jornalistas do sector público são independentes dos poderes do dia. Mas materialmente no dia a dia a independência não existe em absoluto, de tal sorte que até os eventos dos partidos da oposição, mesmo reunindo os mais básicos critérios de noticiabilidade, raramente o são. Então, isso tudo nos faz desconfiar  que estejamos numa situação de simbiose entre a censura, por um lado, perpetrada por alguém de fora, e por outro a auto censura, ou seja, aquele que é nomeado PCA da TVM ou da RM não tem nenhum mecanismo de segurança, como tem por exemplo um juiz conselheiro. Esse PCA a qualquer momento pode ser destituído, porque não foi nomeado por via de um concurso público, não foi confirmado pelo Parlamento como seria ideal num contexto de radio difusão no sector público.  Para mim isso concorre para que o poder controle a remote controlo as agendas editoriais, que do ponto de vista formal estão protegidas, mas na pratica não há nada que se pareça a isso.


NI: Acredita que o partido no poder esteja a tentar dominar os órgãos privados, a semelhança do que acontece em Angola, para silenciar os mídia?

ES:  Há estudos que provam que sempre existiu essa tendência. Diferentemente do que acontece com os midias do sector público, no privado as coisas funcionam de forma indirecta. É por via dos anúncios publicitário. O Estado é dos maiores anunciantes em Moçambique, e  a partir dai é mais fácil controlar a agenda de um órgão e tentar manipular a sua linha editorial, tendo em conta que sem esses anúncios não há imprensa que sobreviva. Por outro lado, as empresas públicas ou privadas, mas dominadas por interesses partidários ou por pessoas influentes ao nível do partido não levarão  anúncios para esses mídias, sem que eles se achem compatíveis com os seus desígnios.


Leia e oiça mais sobre a liberdade de imprensa no PALOP em: http://www.dw.de/liberdade-de-imprensa-angola-supreende-outros-palop-desapontam/a-16560824

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Moçambique sem soluções ousadas para sair do dilúvio



O Governo moçambicano, através do INCG, disse na última semana com confiança e tranquilidade que as consequências das cheias no sul do país estavam controladas, quando a cidade de Chokwé já estava submersa e os seus residentes ao relento, sem alimentação e claro, sem os seus bens. Pergunto-me: porque o INGC dá garantias que não correspondem a completa verdade? Quer mostrar trabalho? Se assim for, a quem? Ao Governo, ao povo, a comunidade internacional? Seja lá o que for, considero este tipo de atitude uma segunda calamidade que se alia a primeira, as enchentes. Ao se passar este tipo de informação a mídia, o mundo se tranquiliza, e aqueles que podem contribuir para o bem estar das vítimas nada fazem, consequência: duplica o sofrimento das vítimas. Pode ser um exagero mas as auitoridades mereciam um processo judicial...


E mais uma vez as ajudas internacionais...
Uma semana depois do INGC ter dito que estava tudo sob controlo, o Banco mundial anuncia que vai "disponibilizar" 50 milhões de dólares para ajudar as vítimas e para a reconstrução de infraestruturas das zonas afectadas. Ler mais em: http://www.opais.co.mz/index.php/sociedade/45-sociedade/23976-banco-mundial-disponibiliza-50-milhoes-usd-para-responder-as-cheias.html

As cheias são uma constante em Moçambique. Não está na hora de se criar um fundo especial a sério para isso? Na verdade essa é apenas uma solução de curto prazo, a solução de longo prazo é mais complexa...
Algumas atitudes do Governo, entretanto, indicam que se quer livrar o mais cedo possível da ajuda externa, mas outras atitudes não... Um paradoxo, não?





Enquanto a população clama por ajuda, e principalmente por comida, toneladas de alimentos são destruídos pelas águas, mais um paradoxo. Por outro lado existem as perdas dos comerciantes, quem vela pelos seus interesses? A cultura de assegurar pessoas e bens em Moçambique é quase inexistente, ou seja, um prejuizo sem compensação. Mas é esse mesmo comerciante que paga impostos. E viva o Estado...


Uma desgraça que não é dada apenas por Deus...
Dizem sempre que um dos grandes culpados disto tudo são as alterações climáticas. E eu não discordo. Mas uns vão preferir ficar-se por ai. Mas na verdade sabemos que os países vizinhos, como a África do Sul por exemplo, tem dado o seu contibuto para as inundações em Moçambique. Quando se vem aflitos com as fortes chuvas, abrem as suas comportas, ou seja, somos "naturalmente" obrigadosa herdar a sua desgraça. É a sorte que coube a Moçambique por ser banhado pelo mar, é a foz dos problemas. E me pergunto agora: politicamente é ou não possível gerir as zangas da natureza? Moçambique tem a obrigação de encontrar soluções junto dos seus vizinhos que sejam benéficas para todos, agora não seu se Maputo tem capacidade para negociar isso... Essa sim, seria uma das soluçõs de longo prazo. As desgraças acentuaram-se com o nascimento de Rosinha que já tem 13 anos...






E mais "crocodilagem" sul-africana...

E 15 mil crocodilos escaparam-se de uma quinta na África do Sul. Muitos deles devem estar a caminho de Moçambique, tal como as águas destruidoras, para mais uma jantarada: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=622333&tm=7&layout=121&visual=49 .

A população moçambicana que se prepare, buscar água, lavar e brincar no rio quase equivale a dizer era uma vez... Mesmo na posse dessa informação não acredito que as autoridades impeçam as pessoas de o fazerem. Tal como não acredito que lhes criem alternativas no que se refere ao acesso a água. Pior do que isso: o Governo moçambicano não vai pedir responsabilidades a tal quinta sul-africana, afinal as futuras vítimas não tem voz...

Cheias Moçambique: INGC diz que tem tudo sob controlo

Em Moçambique as autoridades lançaram na última quarta-feira (24.01) o alerta laranja devido as enchentes que se verificam principalmente no sul do país. De acordo com o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), mais de 25 mil pessoas ficaram afectadas pelas chuvas. Vários lugares estão submersos, a população desabrigada e sem os seus haveres. Nas operações de resgate cerca de 5000 pessoas foram retiradas compulsivamente para zonas seguras. Apesar de tudo o INGC garantiu, na última semana,  que ainda tinha tudo sob controlo. A DW, numa entrevista conduzida por mim, ouviu Bonifácio António, porta-voz da instituição sobre o ponto de situação:



Bonifácio António: Neste momento a zona sul, especialmente a bacia do Limpopo, avisou-se as pessoas da zona baixa desta região para que abandonassem as zonas de risco. Quando tivemos a certeza de que o cenário se iria concretizar o Governo decidiu decretar o alerta laranja, que é o ponto mais alto de tomada de medidas de precaução com objectivo de salvar vidas humanas e evitar perda de bens essenciais. O pico das cheias começou a fazer-se sentir sobretudo na região de Chokwé, onde nas aldeias mais críticas estimávamos que 55 mil pessoas pudesse ser afectadas. Grande parte das pessoas da zona de Chokwé e regiões limítrofes que t9iveram conhecimento com alguma antecedência retiraram-se das zonas de risco. Uma pequena parte das pessoas tentou permanecer nas suas residências para preservar os seus bens teve de ser evacuada compulsivamente numa operação que está a ser feita pela unidade nacional de protecção civil....

Nádia Issufo: A cidade de Chokwé está submersa, não é?

BA: Grande parte dela está submersa, muitos serviços essenciais, como lojas e escolas, estão encerrados. Nalguns pontos a água chegou a atingir dois metros. Penso que a operação vai continuar para ver se há pessoas sitiadas...

NI: Quantas pessoas estão afectadas pelas chuvas?

BA: Pelos registo desde o inicio da época chuvosa, em Outubro do ano passado até mais ou menos dia 21 de Janeiro, tinha sido afectadas, não só na região do Chokwé, mas em todo o país, cerca de 25 mil pessoas.

NI: Em termos de apoio aos afectados, o INGC está preparado financeiramente e tecnicamente?


BA: Temos ainda capacidade de assistência as pessoas que foram afectadas, porque este número já tinha sido previsto no plano de contigência que anualmente é aprovado pelo Governo. Então, ainda estamos dentro do limite desse plano e ainda há capacidade para prestar assistência. É claro, trabalhamos com parceiros internos e os sistemas da ONU e ainda há capacidade interna para apoiar as famílias em termos de alimentos, sistema de saneamento, sanitário, etc.

NI: Comparativamente as enchentes dos anos anteriores, como avalia as deste ano?

BA: Podemos dizer que as dos anos anteriores tiveram tiveram uma magnitude relativamente maior porque afectaram simultâneamente várias bacias hidrográficas. Agora estamos a lidar com um ponto específico, então se formos a comparar o universo de pessoas afectadas penso que agora temos um número de afectados relativamente menor em relação aos anos anteriores.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Moçambique e o voto molhado




Ao que tudo indica as desgraças trazidas pelas cheias no sul de Moçambique também estão ser aproveitadas pelos partidos políticos não só para atacar o Governo da FRELIMO, mas principalmente para fazer campanha política com vista as eleições autárquicas deste ano. Ou ainda, para mostrar que as formações políticas evoluíram muito, estando mais activas socialmente.

O MDM, que eu considero o maior partido da oposição, quis dar ajuda material as vítimas das cheias numa das escolas da capital, mas foi barrada por um funcionário do INGC, Instituto Nacional de Gestão de Calamidades,  informa a LUSA. Apesar da resistência, a delegação do MDM procedeu à entrega da doação aos responsáveis dos bairros de origem das famílias alojadas, na presença das vítimas. O partido considerou o procedimento como "burocratização da ajuda", e diz ainda que o Governo não quer que se saiba que a ajuda vem do MDM.

 Também o considerado maior partido da oposição, a RENAMO, acusa o Governo de querer protagonismo nos centros de acolhimento das vítimas, onde circula com símbolos da FRELIMO, noticia ainda a Lusa.

Bem, também se diz que o que a mão direita faz, a esquerda não deve saber... Mas como o jogo político, principalmente em tempos de caça ao voto, exige principalmente visibilidade de boas acções, então esqueçamos a classe e a boa educação...


O Mea culpa de Guebuza?

Foto: Ismael Miquidade


O Presidente moçambicano cancelou a sua participação na XX Cimeira da União Africana, que decorre na Etiópia, para acompanhar de perto as operações de apoio as vítimas das fortes chuvas que atingem o sul do país. Será a atitude de Armando Guebuza uma tentativa de se redimir, entretanto sem se pronunciar publicamente, pela sua aparente falta de sensibilidade em relação as vítimas das enchentes que afectam o sul do país? Recorde-se que Guebuza celebrou em grande o seu aniversário, o que está no seu direito, enquanto a população morria afogada por causa das cheias, o que já é questionável.

Acho-me no direito de questionar porque a boca do Presidente mal se abre nos momentos em que o seu povo passa por aflições. Provavelmente se tivesse adiado a festa para um momento oportuno, e participasse na Cimeira da União Africana as críticas seriam poucas, ou até inexistentes. Se bem que em encontros desta natureza geralmente mais se gasta do que se resolve... Se o que ia ser gasto na sua viagem e da sua comitiva for canalizado para os afectados já seria de louvar, não? E um anúncio televisivo para todo o país já seria legitimo neste caso...

Bem, também reconheço que é caso para dizer: "preso por ter cão, preso por não ter..."
Avante Moçambique!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Vai ai uma cerveja virtual para fechar?



Conclui que o sonho de muitos homens está a prestes a tornar-se realidade, mas para tal falta só a cerveja! Atualmente os sites de desporto são também uma espécie de resista Playboy online. Neles podemos nos atualizar sobre os resultados de uma partida de futebol entre o FCPorto e Benfica, enquanto esperamos pela actualização do próximo minuto, conhecemos a Miss ginástica de Cuba, com os seios bem bombados de cilicone, ou a top model perdida de amores por Messi com as mãos sobre os seios e olhar para o céu, todas com pouca roupa e em posições que fazem tremelicar até um homem de batina.

Espero poder estar viva para ver ser vendida na internet uma cerveja virtual para concretizar as fantasias masculinas. Porque não duvido que a pornografia seja o próximo passo...

Disparar contra crianças

"Ich mag kein Kinder!", em Português, não gosto de crianças, disse um alemão ontem aos seus amigos quando uma criança, acompanhada da sua mãe, sentou-se ao seu lado no autocarro. A criança, que ouviu, murchou logo e não mais abriu a boca de tanta tristeza, a mãe acariciou o filho e em silêncio disse: "eu gosto de crianças, eu amo-te". Minutos depois mãe e filho saíram do autocarro, e para o azar do alemão, mais uma criança sentou-se ao seu lado. E pensei cá com os meus botões: "É melhor mudares de planeta..."

Quando chegaram ao destino o filho disse a mãe: "estou muito triste..." A mãe não podia apenas pedir ao filho que ignorasse a facada, tinha de tentar curar um coração destroçado, apesar de estar também com o seu em frangalho. Quem acalenta o coração de uma mãe?

Ao longo do dia a criança comentava o o sucedido e perguntava: "mãe, ele é louco, não é?", e já no fim do dia finalizou: "Vou pedir a Deus para não sonhar com aquele senhor..."

Nascer adulto
Provavelmente o senhor que não gosta de crianças julga que nasceu adulto, ou então talvez preferisse ter nascido adulto. Isso penso eu com revolta, claro. Mas os motivos para ele não gostar de crianças podem ser muitos, e os dele só ele conhece. Uma prima minha dizia-me sempre: "Nádia, não gosto de crianças.", mas nunca o disse em frente a uma. Hoje é mãe de dois meninos, e eles são os mais que tudo da vida dela. O destino assim quis que aprendesse a gramar de crianças .


Liberdade de opinião vs Agressão
Cada um tem o direito de sentir, fazer e dizer o que pensa. Entretanto, a sensibilidade é um dos requisitos indispensáveis para se gozar correctamente da liberdade. É algo que ajuda a impor limites. Sim, limites, porque a liberdade também tem limites, embora muitos pensem que não, para o mal da humanidade...
Caso contrário, ela pode se tornar uma arma perigosa. Diz uma amiga, "o teu limite acaba onde começa o meu."

Acho que liberdade é algo nato, mas que deve ser trabalhado ao longo da vida. É algo também resultante de uma conquista. Hoje se defende tanto a liberdade, que muitos não trabalham para a legitimar. Muitos tem-na apenas como dado adquirido e disparam-na para qualquer um. Outras vezes até sem um alvo concreto, só descobrem a vítima depois de a ferirem, outros nem se preocupam com isso. Só espero que os fomentadores acérrimos desta faca de dois gumes, também comecem a pensar num antídoto. Não vão ser eles também ser vitimas do seu próprio doce veneno...