terça-feira, 6 de novembro de 2012

Caso Romney ganhe...

O que se pode prever para os Estados Unidos da América e para o mundo? Muitas catástrofes de certeza, mas no momento vou citar apenas uma óbvia e preocupante; altas figuras do partido republicano são proprietárias de parte da indústria armamentista. Este é um dos negócios mais lucrativos do mundo, dominado pelos que simultaneamente dizem lutar pelo fim da guerra no mundo. Ora, este é um discurso paradoxo, afinal os seus bolsos precisam de continuar a engordar a custas da morte alheia.

E relativamente ao Médio Oriente? Assistiriamos a um retrocesso nos pequenos passos dados por Barack Obama. Mas quero acreditar que os norte-americanos tem bom senso o suficiente para medirem os ganhos ao votarem num dos candidatos, não só tomando em conta os seus interesses nacionais, mas que pensem também na política internacional. Uma grande responsabilidade ser eleitor norte-americano, não? Votarei ao assunto em breve...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

E aperto de mao entre Marcelina Chissano e Afonso Dhlakama é para quando?

Não tenho muito a dizer sobre a celebração dos 20 anos de paz, afinal a imprensa já o fez com artigos e entrevistas que trazem revelacoes quentes sobre os meandros das negociacoes de paz. O assunto já foi revirado do avesso, com analises do ponto de vista económico, político, social, olhando para o passado para o presente e futuro na esteira do abencoado acordo, enfim, quase esgotado.

Mas subitamente lembrei-me de um facto que marcou a era pós acordo. Lembram-se que a ex-primeira dama, Marcelina Chissano, recusou-se a apertar a mão a Afonso Dhlakama, presidente da Renamo? Lembro-me do constrangimento que isso causou, deixando até muitos moçambicanos envergonhados, embora não tivessem nada a ver com o facto. O que revela que os moçambicanos, tem educação, e acima de tudo capacidade de perdoar e vontade de viver em harmonia.

A atitude da senhora Marcelina Chissano, embora tenha sido pessoal, acredito, que criou embaraços para o presidente Joaquim Chissano. Afinal abriu espaço para as pessoas duvidarem da intenção de um acordo de paz e reconciliação por parte da Frelimo. Se até dentro de casa nao havia vontade...
O caso foi pano para manga, manga de camisa de um gigante! Mas esse gigante não era afinal tão grande, porque 20 anos depois quase ninguém se lembra desse facto, que de certa forma passou uma mensagem...
Diz-se que o povo tem memoria curta, não é?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Guiné-Bissau limita-se aos bastidores da ONU

O facto da Guiné-Bissau não ter discursado na 67ª Assembleia das Nações Unidas representa uma humilhação para o país e seu povo, considera o analista político guineense Fafali Kouodawo. Mas o analista reconhece a importância do diálogo lançado durante a Assembleia entre o presidente deposto, Raimundo Pereira, e o presidente de transição, Serifo Nhamadjo. Isso representa, a seu ver, uma base para negociações para o fim da crise política da Guiné-Bissau, onde principalmente os guineenses tem a responsabilidade de resolver os seus problemas. Numa entrevista a DW, conduzida por mim, Fafali Kouodawo começou por comentar a iniciativa de diálogo entre as partes:

Fafali Kouodawo: É uma iniciativa bem vinda, embora venha um pouco tarde. A solução na Guiné-Bissau passa por um directo diálogo entras as partes envolvidas.

Nádia Issufo: Pode se interpretar esse diálogo como a base para o lançamento de negociações directas?
FK: Com certeza, o diálogo é que poderia abrir o caminho para negociações que desemboquem numa solução viável. E neste momento em que as posições estão muito rígidas é necessário que haja um diálogo directo entre as partes. O país em causa é a Guiné-Bissau e as pessoas em causa são os guineenses, então é melhor que eles dialoguem a acertem as posições e de seguida que informem aos seus apoiantes para limarem as dificuldades. Penso que isso é melhor do que ter sempre intermediários que tem  as suas próprias estratégias e interesses a defender, e pode ser que esses interesses não sejam convergentes com os interesses guineenses.

NI: O braço de ferro entre a CEDEAO e a CPLP em que medida dificultam o alcance de uma solução para a Guiné-Bissau?
FK: Não há razão de ser este braço de ferro. Há uma tradição internacional segundo a qual uma organização regional tem a pro-eminência na resolução de um conflito. No caso vertente a CEDEAO, a Comunidade Económica dos Estados da África do Ocidental, é que está mais próxima do foco do conflito. A Guiné-Bissau é membro da CEDEAO, e esta organização recebeu o mandato da ONU de procurar soluções.

NI: Tanto Serifo Nhamadjo como Raimundo Pereira não discursaram na 67ª Assembleia-geral da ONU na semana passada embora tenham estado lá. Que leitura se pode fazer da posição da ONU?
FK: Normalmente as Nações Unidas não são parte de um conflito. A ONU deveria estar no meios das partes, mas a ONU tornou-se o palco em que as partes mostraram a luz do dia todas as dificuldades que o país tem neste momento para se reencontrar. É um acontecimento sem precedente na história da Guiné-Bissau independente, é um acontecimento que marca profundamente os guineenses, porque o país começou a falar na tribuna da ONU antes da independência, colocando Portugal numa dificuldade enorme no plano internacional. Hoje a Guiné-Bissau é que está numa posição difícil e humilhante nesse mesmo plano. Por isso teria sido melhor se tivesses concertado antes para que o palco em que a Guiné-Bissau obteve a sua maior glória não se torne o palco em que vai obter a sua maior vergonha.   

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Haverá ou não dois poderes dentro da Frelimo?




Armando Guebuza deverá continuar a dirigir a FRELIMO, o partido no poder em Moçambique, apesar de não ter o total apoio da formação. Espera-se apenas pela confirmação que sairá da X Conferência da Frelimo, a ter lugar no próximo dia 22. O ponto da questão é que não podendo se recandidatar como presidente do país, pois vai já no segundo mandato, não pode também comandar o partido no poder, segundo o histórico da FRELIMO. Entretanto, as razões para a sua continuidade são associadas também ao seu interesse em tirar proveito dos recursos naturais descobertos no país. Conversei com Alfiado Zunguzea, analista político do Centro de Estudos de Resolução de Conflitos "Justa Paz": 
 


Nádia Issufo: Quais são as expectativas para o X Congresso da Frelimo?
Alfiado Zunguza: Uma delas é saber quem será o próximo candidato do partido nas próximas eleições presidenciais. A outra é o posicionamento do partido em relação as linhas estratégicas que poderão guiar o desenvolvimento do país, especialmente na redistribuição da riqueza nacional, tendo em conta as potencialidades que o país agora vem evidenciando na área dos recursos naturais, especialmente na área dos gás e do petróleo. No geral não haverá grandes mudanças do ponto de vista ideológico e das grandes orientações políticas do partido.

NI: Na últimas sessão do comité central da Frelimo foi visível a tensão, com algumas figuras da velha ala a não concordarem com a recandidatura de Armando Guebuza a presidência do partido. Podemos considerar este momento como uma verdadeira evidência de cisões no seio do partido?
AZ: Creio que sim, uns queriam que ele se recandidatasse pela terceira vez a presidência da República, e isso significaria alterar a Constituição e acredito que ninguém estava disposto a viver situações semelhantes as dos países vizinhos, como a Zâmbia e o Malawi. Aliado a isso é preciso entendermos que a própria eleição de Guebuza criou um pouco de alienação interna por parte daqueles que se diziam da ala de Chissano, e um terceiro mandato significaria isso e eles não estão a vontade com isso. Com todas as consequências económicas e políticas ao nível interno e externo que isso iria representar. A outra linha da discórdia é a recandidatura de Guebuza a presidência do partido. Recuemos um pouco na história, quando ele foi eleito, Chissano era presidente do partido, e houve uma necessidade de Armando Guebuza assumir a presidência do partido porque se dizia que seria complicado haver dois poderes dentro do partidos, um presidente da República e o presidente do partido que traça as linhas estratégicas da governação do país. Este é o debate do momento. Mesmo a eleição de Guebuza deverá sofrer contestação, mas depois poderá acontecer o mesmo que aconteceu com Chissano, ou seja, ele deverá ser convidado a renunciar ao cargo para evitar clivagens internas.

NI: Apesar de tudo Guebuza reuniu apoios. Como se explica isso?
AZ: Há o politicamnte correcto e há as atitudes. Naturalmente que todos os membros do comité central não podem negar o apoio a ele. É arriscado fazer isso, há uma certa disciplina partidária. Se o próprio secretário-geral é o primeiro a dar o apoio, então os outros devem segui-lo. Se algum membro se mostra contrário as posições internas as suas chances de ascender dentro do partido também se tornam diminutas.

NI: Pode ainda acontecer uma reviravolta no seio da Frelimo neste X Congresso?
AZ: Creio que não. As coisas deverão andar como o previsto, do ponto de vista da re-eleição de Guebuza como presidente do partido. A mudança só poderá acontecer depois da eleição do presidente da República.

NI: O que se pode esperar da Frelimo nos próximos tempos face as divergências internas que vem ao público agora com mais frequência?
AZ: Para a Frelimo se tornar coesa terá de se abrir mais ao diálogo interno, e não pautar apenas pela disciplina partidária, onde quando o chefe decide todo o resto tem de cumprir. É a própria sobrevivência do partido que estará em risco se houver cisões. Como agora por exemplo, grandes figuras do partido já se manifestam contra, o que não acontecia antes.  Isso mostra que a filosofia interna tem de mudar. Caso contrário teremos uma situação idêntica a da África do Sul.

NI: A recandidatura de Guebuza acontece numa altura em que são descobertas quantidades inestimaveis de recursos naturais. Sabe-se que o presidente domina o mundo dos negócios no país. Será que ele pretende tirar partido disso através da sua posição?
AZ: É uma linha de interpretação dos factos, uma vez que ele tem também investimentos na área de recursos naturais. Pode ser interpretado do ponto de vista pessoal assim. Mas também poder visto, do ponto de vista estratégico, de envolvimento, não só do partido, mas de como o processo de exploração não seja alterado para o beneficio de próprio partido, de empresas em que o partido tem participações. E também para que do ponto de vista de estratégia nacional não haja uma alteração se houver uma outra chefia do governo. Muitos dos acordos poderiam ser re-equacionados, mas penso que o tempo nos ajudará a clarificar esta situação. 

 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Weiss Visum

É o meio legal para residir na Europa frequentemente usado por africanos. Através do casamento de um europeu e um africano este último obtém, por direito, o visto de residencia. Assim, isso se transformou num negócio com esquemas bem sofisticados, sempre na mira da polícia. Ou seja, trata-se de uma lei que se pode tornar "ilegal". O amor, a instituicao família, os valores da uniao, que nao constam de nenhum instrumento legal  escrito pelo Homem, servem aqui para justificar as autoridades que o casamento é verdadeiro.
Se para os africanos o weisse visum, ou visto branco em alemao, é no verdadeiro sentido da palavra, a garantia de permanecer tranquilo e para sempre no "El-dorado, para algumas europeias eles representam a tabua de salvacao. Por exemplo, esse visto nao tem apenas a cor mágica, ela tem também...

O peso do visto
Mulheres brancas muito gordas ao lado de homens de estatura média, e alguns até quase anoes, sao uma quadro comum nalgumas cidades alemaes. Na minha cabeca podre, imagino o homem a morrer sufocado com tanta carne por cima. Alguns com ares mesmo de vulgares casados, nao falam muito. O elemento que estabele a principal ligacao entre eles é o mulatinho que se agita inocente no carrinho. Tento transpor o semblante para confirmar se o ar pensativo e triste deles tem a ver com o visto, mas claro, esses delírios meus se acomodam sem resposta, até a próxima oportunidade.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Lei angolana dos partidos políticos visa destruir a oposição, diz o PP


 Em Angola o artigo 33 da lei dos partidos políticos prevê a eliminação de um partido, por decisão do Tribunal Constitucional, se este não atingir os 0,5% do total de votos expressos nas eleições legislativas. O mesmo artigo prevê também a mesma sanção a partidos que não participem por duas vezes consecutivas, isoladamente ou em coligação em qualquer eleição legislativa ou autárquica, com programa eleitoral e candidatos próprios. Assim estão ameaçados vários partidos, até a Nova Democracia que na legislatura passada esteve no Parlamento. Outro que nem sequer conseguiu participar nos últimos dois pleitos foi o PP. Entrevistei para a DW o seu secretário-geral, David Mendes, que começa por criticar a lei: 

David Mendes: Essa é uma medida administrativa que pretende afastar algumas figuras do processo democrático que o país está a viver. Um partido não pode ser afastado, sob o ponto de vista administrativo, só porque não conseguiu concorrer em eleições. Se o argumento usado fosse a falta de atividade do partido,  de facto, talvez ai se justificaria. Mas o Partido Popular (PP) tem referência nacional e não só, ele existe realmente que demonstra a nossa existência política.

DW África: Então a lei em causa pode aniquilar a oposição?
Davida Mendes (DM): Visa esse objetivo. Veja o exemplo da Nova Democracia, como aceitar que um partido que esteve quatro anos no Parlamento, porque não atingiu 0,5% dos votos nestas eleições, é automaticamente extinta. Isto não tem uma explicação lógica. Qual é a razão que leva a extinção de um partido por não ter atingido os 0,5%? São medidas que visam impedir um verdadeiro movimento político em Angola.

DW África: A lei implica aos partidos políticos mais pequenos algum esforço adicional para a sua sobrevivência. O que o PP pretende fazer?
DM: Vamos criar todas as condições para re-fundar o partido. A lei exige 7500 assinaturas, nós temos mais do que este número em todo o país, e em menos de uma semana podemos reunir todos elementos constitutivos para que o partido volte a  ser aceite pelo Tribunal Constitucional. Para nós este não é um verdadeiro inconveniente.

DW África: Fora a época eleitoral, quais são as atividades do seu partido?
DM: Somos dos poucos partidos virados para a luta contra a corrupção. A nossa atividade está direcionada para os casos de corrupção e desvio de fundos e trazer esses casos a conhecimento público. Fazemos isso a nível nacional, desde os governos provinciais, as administrações, e, como é obvio, a presidência da República. Temos dado apoio as outras organizações da sociedade civil, particularmente no exercício do direito a manifestação. Temos estado em quase todas as manifestações, quer a nível nacional, quer a nível provincial.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O que é um sapato?



Andar descalço em África no tempo colonial era associado a inferioridade social. Pode-se considerar até que o sistema de castas invisível instituído era basicamente determinado, numa primeira fase, por duas condições: os que dominavam tinham os pés cobertos, e os dominados não.

Na literatura, principalmente a africana, esta situação é frequentemente repescada. No romance "As visitas do Dr. Valdez", de João Paulo Borges Coelho, um dos personagens, negro moçambicano, diz: "Jeremias lhe disse que é humilhante andar descalço". No livro de Pepetela "A sul. O sombreiro"  esta simbologia é também representada, mas aqui o escritor apresenta o sapato também como instrumento de tortura no pé do dominador: "As bolhas de água não lhe largavam os pés. Bolhas que depois rebentavam em dores intoleráveis. Sabia, era de andar longas caminhadas com botas altas no calor sufocante."

Como o poder maltrata não é? Outra questão lógica, mas muitas vezes ignorada por quem usa sapatos, tem a ver com o clima. Num calor de 40 graus só um masoquista quer se enfiar dentro de sapatos. Portanto, a indumentaria de cada povo tem a ver também com isso e com o conforto, uma mensagem deixada bem clara na última obra de Pepetela.

Mas o sapato como símbolo de poder é claramente explicado nesta obra: "As botas de montar eram signo da sua condição de cavaleiro e acima de todas as dores devia ficar sempre a insígnia de nobreza."

Anos depois das independências no continente, o sapato continua a ser o elemento de "separação" entre os que tem e os que não. Também é o barómetro de avaliação usado por alguns para medir o estágio de desenvolvimento dos países. Repesco uma citação do escritor sueco Henning Mankel, entrevistado por mim em Maputo há quase três anos: "Quando cheguei aqui (em Maputo), fiquei fora do teatro ver as pessoas a passarem e quase ninguém tinha sapatos. Agora aqui todas as pessoas têm sapatos, dois, três, quatro pares de sapatos... Claramente estou a ver um grande desenvolvimento. Mas a coisa mais importante é que há paz que esta cá para ficar."

Teoricamente a colonização acabou, mas os símbolos permanecem intactos, com a mesma capacidade destrutiva e separatista.


Mas há contextos em quem o sapato pode representar o fim da dignidade humana. Por exemplo, os milhares de sapatos expostos no museu que outrora foi o campo de concentração de Auschwitz na Polónia, fez-me perceber de forma angustiante e quase real o sofrimento dos prisioneiros. Nem o conjunto de malas, ou de roupas é tão expressivo quanto o sapato. Igual situação se aplica ao fim de uma manifestação violenta, por exemplo. Um campo de batalha decorado com sapatos de forma aleatória pode indicar o nível de violência ou o desespero das pessoas.


Nalguns lugares da Europa o sapato ganha um significado sui generis actualmente. Dá gosto a alguns jovens andar de sapatos sujos, quase nojentos, e rasgados. Quase não se olha duas vezes para eles. Claro que é uma marca de rebeldia e uma forma de marcar a diferença. Mas entendo isso como um escangalhar, sem consciência e sem intenção, de um separador de classes. Ou seja, arrisco mesmo a ousar pensar que essa atitude irreverente dos jovens é o indicio do inicio do homicídio do elemento que estratifica o Homem...