quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Portugueses em Moçambique, uma praga?



Se os moçambicanos não o dizem com palavras, então referem-se a eles como se o fossem. É comum ouvir-se frases do género: "Esses tugas estão em todo o sitio!", "Vai ao restaurante piri-piri e vais encontrar tugas sentados lá o dia todo a beber café", "Veio ao meu serviço a procura de emprego e sem marcação pediu para falar com a minha boss que é portuguesa". E assim segue. A expressão facial dos moçambicanos é mais reveladora do que as palavras que proferem.

A crise económica que atinge Portugal e a recente descoberta de recursos minerais em Moçambique, alvo de grandes investimentos, está a atrair portugueses para o país. A esperança de uma oportunidade de emprego ou de negócios é o que muitos trazem na mala. Alguns levam de volta na bagagem decepções, afinal Moçambique não é exactamente o que estavam a espera.

A grande preocupação é avaliar as consequências da entrada massiva de portugueses, e saber se o governo está a tomar medidas preventivas para que os moçambicanos não se sintam prejudicados com este imigração. Não tenho nada contra a imigração, pelo contrário, mas sim sou contra lesar os nacionais ao se favorecer estrangeiros.

Moçambicanos em primeiro lugar
E muitos exemplos e situações podem ser listadas, por exemplo, o português obtém o visto de entrada nos aeroportos do Moçambique, enquanto que o moçambicano para entrar em Portugal tem de passar por um processo burocrático tão longo como se quisesse ir a lua. Quando o governo moçambicano vai acabar com esta desigualdade? Quem verifica se os portugueses tem condições financeiras para estarem no país? Se tem acomodação? Se passagem tem dois "vês"? Como se vai sustentar? Quem o convidou? etc

Em termos de absorção de mão de obra, a lógica deveria ser privilegiar os nacionais. Já sei que existe uma lei sobre isso, mas consegue-se fazer valer na prática? Absorver o que não temos, é justo, mas que não se adquira o que a casa já tem.

"Pés de fada" sobre escadas moçambicanas
Antigamente, há sensivelmente 15 anos, não era comum ver se portugueses a conviverem com os moçambicanos. Havia uma espécie de "Apartheid". Hoje isso mudou. É verdade que a mentalidade de muitos portugueses e moçambicanos mudou, é gente jovem e esclarecida. Em Maputo vê-se alguns portugueses em grandes conversas com os nacionais em cafés, ao que tudo indica o tema é negócios. Sabe-se que para que um estrangeiro se dê bem a esse nível tem de se associar a um nacional. Isso leva-me a duvidar que essas situações sejam movidas ou ditadas por algum esclarecimento sobre igualdade, humanidade, ou fraternidade entre povos... Os moçambicanos podem estar "a servir de escadas" para os portugueses, como diz um amigo meu. Só que escadas que não são pisadas descaradamente como antigamente...





terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sarkozy fora, Costa do Marfim regressa as tensões

A saída de Nicolas Sarkozy da presidência francesa já está a influenciar a situação política da Costa do Marfim, por via da (in)stabilidade. Os ataques ao exército costa-marfinense e ao quartel no incio deste mês são o primeiro sinal de um despertar já previsto dos apoiantes de Laurent Gbagbo, o ex-presidente do país. E a resposta aos ataques chegou alguns dias depois, uma delegação do partido de Gbagbo foi atacada quando decorria uma reunião. 

Conduzido pelo ex-presidente francês, e com o suporte das tropas da ONU no terreno, Alassane Ouattará conseguiu subir ao poder, tirando Laurent Gbagbo de lá. Neste processo quase reacendeu a guerra civil que resultou na morte de mais de 3000 pessoas. O atual presidente, que gozava de simpatias junto de Sarkozy, tinha praticamente o poder em mãos. Um facto que muda agora com a nova política de François Hollande que disse em Paris que quer estabelecer uma nova política com as suas ex-colónias. O seu discurso parece menos ditador e extremista, como era o seu antecessor. Finalmente a França dá sinais de esperança para uma relação de menos imposição a outros fancofonos concedendo-lhes realmente alguma independência. Mesmo que isto custe antes alguns litros de sangue, como pode vir a acontecer na Costa do Marfim...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

UNITA organiza manifestações contra irregularidades eleitorais

Em Angola a UNITA convocou uma manifestação para sábado passado, contra supostas irregularidades da CNE no processo eleitoral. O maior partido da oposição chamou, por isso, todos os cidadãos para exigirem um processo transparente e justo, mas de forma pacífica. Entrevistei para a DW o porta-voz do partido, Alcides Sakala, na véspera.

Nádia Issufo: O que leva a UNITA a realizar a manifestação?
Alcides Sakala: A manifestação é pela paz, democracia e sobretudo pelos respeito a lei. Queremos que se introduza em Angola a cultura de respeito a lei. Isto por causa da forma como a CNE está a conduzir o processo eleitoral. Nós verificamos nos últimos dias um conjunto de situações irregulares que violam a lei. São questões importantes para a credibilização do processo que vão desde problemas das actas simples, a questão das listas, a auditoria e outras questões que não tem sido salvaguardadas. Porque parece não haver vontade da CNE que sofre uma grande influência do executivo angolano. Por isso achamos que deviamos organizar esta manifestação para a defesa da legalidade e da paz.

NI: Qual foi a reação da CNE face as vossa queixas?
AS: Apresentamos um memorando a CNE na última sexta-feira. Também entregamos o documento a comunidade diplomática acreditada em Angola e a missão de observação da SADC. Em resposta a CNE criou uma Comissão que vai, segundo dizem, analisar o nosso memorando e eventualmente produzir algumas recomedações.

NI: Caso não sejam resolvidas as irregularidades constatadas o que pretendem fazer?
AS: Queremos manter um discurso positivo. Penso que os homens de bem, com sentido de história de Estado tem de se pautar por um diálogo estruturante. Vamos dar inicio a um processo que tem de conduzir necessariamente a institucionalização dos processos eleitorais. Imagina que sempre que tivermos eleições se estabeleça este braço de força entre a sociedade civil, partidos e a CNE. Isso não seria bom para credibilizar processos que serão recorrentes no nosso país.


Mais sobre o tema para ouvir e ler em:

http://www.dw.de/dw/article/0,,16189464,00.html

domingo, 26 de agosto de 2012

A segregacao veio a tona com os raptos em Mocambique

Nao sei se fico mais chocada com os mocambicanos ou com o seu governo no caso da uniao das comunidades muculmana, hindu e ismaelita contra o governo.  Por causa da indiferenca das autoridades mocambicanas nos raptos de dezenas de empresários mocambicanos de origem asiática e consequente exigencia de pagamento de resgates, essas comunidades pretendem dar a devida resposta para os chamar a razao.

Vejo agora gente supostamente esclarecida a demonstrar atitudes segregacionistas assentes em sentimentos de superioridade com discursos do tipo: "como o governo pode ficar refem de algumas comunidades?". Os membros dessas comunidades sao tao mocambicanos com os outros, por conseguinte tem os mesmos direitos e obrigacoes. Na ausencia de respeito que se faca a justica. Nao olhemos para essas comunidades como os "outros", ou "aqueles", somos nós. Na hora dos raptos a maioria, que nao pertence a essas comunidades e que se consideram os "legítimos" mocambicanos, nem reagiram, afinal nao era nada com os mocambicanos.

A reacao de alguns mocambicanos mostra que muitos estao subjogados pelo conformismo e o "deixa andar", que aliás é uma mal que o governo quer combater. Estao habituados a falar mal em espacos como facebook e cafés da cidade, mas na hora da verdade nem um pio. Deceriam aprender os bons exemplos como os dessas comunidades, e de certeza que Mocambique seria um pouco melhor.

A única forma de lidar com um governo que nao cumpre com as suas obrigacoes e atingi-lo pelo lado mais doloroso, o voto e o bolso. Já que os apelos dos líderes religiosos muculmanos para a resolucao dos casos foram ignorados, e a decadente polícia mocambicana estava de bracos cruzados num primeiro momento.
Sendo estas comunidades atingidas por terem importantes empresários, entao que seja também por ai que se atinje o governo. Páram o comércio e lesam a economia do país, já que eles só sao mocambicanos nesse sentido, e para pagar impostos.

Isso é democracia sim, o governo esta no poder para defender os interesses do povo, de todo o povo, diga-se. Se nao for assim, entao que nao conte com o apoio dos lesados. Isso sim, e liberdade, democracia e igualdade. Princípios que deveriam ser válidos para todos. Portanto, mocambicanos pseudo-instruídos, nao se deixem cegar por sentimentos desumanos, que ao que tudo indica a Universidade nao vos conseguiu apagar e muito menos a família. Justica e solidariedade devem se sobrepor a mesquinhez que insiste em vos envergonhar.

E esta agora sr. Guebuza?

Se a Frelimo, partido no poder em Mocambique, nunca quis assumir as suas divergencias internas, agora nao tem como. Se nao o fizer com palavras, entao fará com decisoes. A VII sessao do comité central do partido que governa Mocambique esta a deixar bem claro as posicoes que serao assumidas no X Congresso do partido, a ter lugar em Setembro, quanto a conducao do partido e do país.

A lei mocambicana só pemite dois mandatos presidenciais, o que Armando Guebuza está prestes a concluir. O presidente da Frelimo, é também presidente do país. Entretanto, pelos comportamentos de uma ala do partido está evidente que se quer fazer a "viragem" dentro do próprio partido ao manter Guebuza como seu presidente, embora tenha de abandonar a presidencia do país em 2014.

Isto porque ao nível da Constituicao a Frelimo nao teve coragem para aumentar o número de mandatos. Recorde-se que a Frelimo até testou a oposicao, sociedade civil e populacao ao anunciar que iria rever a Lei mae, sem entretanto anunciar os pontos. A reacao "vem quente que estamos a ferver" cortou a segunda perna da Frelimo. Porque o facto de o governo da Frelimo ser ainda dependente da comunidade internacional já o tinha deixado meio deficiente há muito tempo.

Para que Guebuza continue a mandar em Mocambique nao lhe resta outra saída se nao lutar pela presidencia do partido, e através dela manipular a marionete que possivelmente seria o futuro presidente. Só que "os mais velhos" da Frelimo, já se mostram contra este aparente manobra. Mais sobre o assunto para ler em: http://www.opais.co.mz/index.php/politica/63-politica/21796-historicos-da-frelimo-nao-concordam-com-proposta-de-paunde-de-dois-centros-de-poder.html

O crescente domínio de Armando Guebuza na área empresarial mocambicana tem sido alvo de criticas ao nível local, afinal resta pouco para outros jovens empresários, a populacao que qestiona para além da sociedade civil e oposicao. A nível internacional a imprensa tem "denunciado" os seus interesses comerciais com artigos sem fim.

A médio prazo Mocambique será sem dúvida uma das grandes reservas de matérias primas de África. Muitos mocambicanos vem na descoberta de hidrocarbonetos uma oportunidade de enriquecerem, e estrangeiros também. A sua exploracao, entretanto, ainda nao é para já, altura em que por coincidencia termina o mandato do presidente do país e também um dos maiores empresários de Mocambique.

A pergunta que coloco agora é: esta suposta contestacao no seio da Frelimo é para parar a suposta sede de Guebuza pelos negócios ou terao os contestários também os seus interesses nesse momento que se avizinha? Também se diz a boca pequena que a Frelimo reivindica maior participacao nos importantes negócios como forma de poder financiar mais folgadamente as suas actividades políticas, e o domínio de Armando Guebuza nao estaria a facilitar isso.

O que escrevo nao é uma revelacao para muitos mocambicanos, mas nao podia deixar de apresentar uma das partes sordidas de uma luta pelo poder em nome de riquezas que devem beneficiar os mocambicanos em primeiro lugar. Todo o futuro de Mocambique está já a ser engendrado na certeza de que o país continuará nas maos da Frelimo.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A nacionalidade de Deus

filho: mama, porque eu não sou Deus?
mae: porque queres ser Deus meu filho?
filho: para ter muitos poderes.
mae: o mais poderoso do mundo é só Deus.
filho: mãe, Deus na Alemanha é alemão ou português?
mae: Deus não tem nacionalidade.
(e eu penso: se Deus fosse português Alemanha seria a casa de uma Maria e não de Angela...)
filho: mãe, em Moçambique Deus é português?
mae: porque em Moçambique Deus seria português??
(e eu penso: já foi um dia e tenta agora de novo. Espero que os moçambicanos não deixem)
filho: Esta bem mãe, em Moçambique Deus é moçambicano.
mae: ahhh...
(e eu penso: sim, em Moçambique Deus tem direito a ter nacionalidade, pelo menos uma vez na vida. Mas alguns moçambicanos já ocuparam o cargo)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Frelimo baixa o veu do voto

Uma ameaça da comunidade muçulmana fez o governo moçambicano recuar imediatamente e autorizar as muçulmanas a usarem o véu nas escolas. É uma falsa desculpa dizer que Moçambique é um Estado laico para legitimar a proibição do véu. Afinal ele sempre o foi, e por isso as freiras andaram sempre cobertas por véus, hindus a sua maneira e por ai a fora, e ninguém disse nada e a paz reinava no país. Veio alguém para levantar o véu e os muçulmanos levantaram a laia...

Parece que houve um efeito contágio. Na Europa a tendência para proibições cresce, a França ultrapassou-se na minha óptica. O governo mocambicano talvez num laivo "ocidental"  tenha tomado a decisão. Mas a  relação de Moçambique com os Islão não é igual a relação do Islão com os outros países. A luta da França prende-se com questões de poder.  Um patamar do qual Moçambique não faz parte. O Islão em Moçambique faz parte do gene de uma parte da sua história, e isso não se apaga levantado o véu. Eles representam cerca de 30% da populacao.

Tal como o partido no poder nao pode, de forma alguma, apagar os muculmanos nas eleicoes e na angariacao de fundos para a caca ao voto. Tudo tem um preco, e cada um deve saber se esta em condicoes de arcar com as consequencias. Caso contrário, é o que se ve.

Para mim a posicao da comunidade muculmana mostra por um lado que há no país a nocao do voto consciente. Afinal vota-se também em quem salvaguarda os nossos interesses. Se eles sao bons ou nao isso e outro assunto. É o preco da democracia. Por outro lado mostra que o governo mocambicano nao tem maturidade e seguranca e por isso é frágil. Por isso ele está sujeito a ficar refém de qualquer um.