quarta-feira, 18 de julho de 2012

Onde anda a cara metade de Mandela?

Nelson Mandela faz hoje 94 anos. Apesar da saúde dele se fragilizar a cada dia que passa, e da media estar a espera ansiosa pela sua morte para conseguir audiência, o negro mais famoso do mundo não nos deixa. Mas claro que não se aplica aqui a frase "vaso ruim não quebra"... Neste dia importante para ele e bastante mediatizado, apercebi-me de uma coisa, que a sua esposa Graça Machel, ou Graça Mandela, não tem aparecido ao seu lado na imprensa neste momento dificil para Madiba. Claro, que o facto de não aparecer não significa que não esteja ao seu lado, mas é curioso. Os último artigos que li dão destaque aos seus filhos e netos. Falam dos dois primeiros casamentos dele, mas do terceiro nada mencionam. Quando esteve doente e hospitalizado, e os jornalistas se instalaram a porta da sua casa, a sua esposa esteve invisivel. O que se passará?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Guebuza: política de prevenção e massageamento?



O presidente de Moçambique numa visita a província de Cabo Delgado, em mais umas das suas visitas abertas, apelou a população a vigiar a prospecção de hidrocarbonetos, segundo o jornal "O País". Ler mais em:  http://www.opais.co.mz/index.php/politica/63-politica/20930-guebuza-pede-populacao-para-vigiar-hidrocarbonetos.html

Ao querer "amaciar" a população, para garantir uma gestão governativa saudável, Guebuza coloca-a numa situação ridicula, e parece-me que assim goza com ela. Que condições tem a população para responder a este tipo de pedido? O presidente moçambicano é bastante inteligente, e me parece que com este pedido quer fazer sentir a população que ela também é parte do processo, o que não é bem verdade.

Vale mais previnir do que remediar
Ainda nesta província, onde estão os mais importantes projectos de gás, apelou a união, citando exemplos de países africanos que vivem em conflitos por causa das riquezas naturais. Armando Guebuza também não se esqueceu de falar da ganância: "...há uma ambição desmedida de algumas pessoas que querem enriquecer tomando tudo. Não podemos olhar para o gás como motivo de conflitos e divisao, mas sim como um factor impulsionador da uniao”, ler mais em:  http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/contentx/1469551

O terreno está a ser preparado pelo presidente, ele está em ações "educativas" para evitar desastres maiores para o país, e para ele, claro. E a quem une as riquezas do país? A cada dia que passa o continuum entre ricos e pobres se alarga. O seu pedido constitutui um paradoxo, na medida em que as suas teorias chocam com as práticas do seu governo. Os poucos ricos se unem entre eles e aos investidores estrangeiros, e os muito pobres nem tem condições para se unirem entre eles. O presidente falou em ambição desmedida? "rio, rio, rio para não chorar". Algumas ONGs, como o CIP por exemplo, estão sempre a denunciar a participação de gente ligada ao poder político no mundo dos negócios. Até entre eles se instalou a guerra. Segundo a ONG está haver uma migração desta classe dos pequenos e médios negócios para o grandes.

O presidente não deveria deixar que a media publicasse esses discursos, ele não pode confundir a todos com a população a quem ele tenta cultivar uma política ideal, que não é praticada pelo seu governo na integra.





segunda-feira, 2 de julho de 2012

Alemanha fora do Euro? Quem diria...

A Itália mandou a confiante Alemanha para casa na recta final do Europeu de futebol. Teria achado hilariante e irónico se tivesse sido a Grécia a vencer, pelo menos nalgum momento do "Euro" haveria uma inversão dos papeis... E de certa maneira houve, a Espanha, que se recusa a aceitar que está em crise, levou o trofeu para casa.

Depois da derrota os alemães ficaram mudos, nem um piu. Engraçado este comportamento geral deste povo. Mas antes disso, os alemães festejaram as vitórias como se de uma final se tratasse. Devo dizer que exagera(ra)m. É oito ou oitenta, conforme a dor ou felicidade. E muitos sofrem de sindroma de patriotismo agudo. Provavelmente as competições sejam uma oportunidade para manifestar esse amor quase doentio por eles próprios. Tal como tem uma fixação com reis, rainhas, princesas nas suas celebrações...

Parece-me que a Alemanha estava certa que conquistaria o Euro, esquecendo-se que a bola é redonda.  A reação da Mannschaft no dia da sua eliminação é bastante reveladora. Os jogadores estavam incrédulos com o resultado. No silêncio. Outros fizeram questão de esconder as lágrimas. Quem mais reagiu dessa maneira nesta competição? Acho que este comportamento merece uma análise...

Avós dos seus filhos

No fim de semana, na Alemanha, fui a uma festa de crianças com idades que variam dos três aos seis anos de idade, e reparei que aproximadamente 90% dos pais pareciam mais velhos que a minha mãe que ainda não tem secenta anos. A primeira vez que reparei nisso foi há dois meses quando comecei a frequentar mais um parque infantil. As mães com algumas rugas na cara, cabelo meio grisalho. Resumindo: gente bem madura. Isto é apenas a minha observação e não uma crítica.

Sendo eu africana, esta realidade causa-me espanto, mas ao mesmo tempo admiração. Do lugar onde venho as pessoas começam a procriar mais cedo, embora em grandes cidades isso começe a acontecer cada vez mais tarde. Percebi com isso que o ser humano, e principalmente os ocidentais, procura dar voz ao seu EU e depois constitui família, ou tem filhos. A realização profissional, académica, a obdeiência a mobilidade que hoje se impõe faz com que gente grisalha possa ser avó dos seus filhos.

Uma mais velha que muito merece o meu respeito disse-me uma vez: "Vocês fazem filhos aos 30 e depois não tem paciência para eles." Acho que essa teoria se evergonharia um pouco ao ver o quão paciente esses grisalhos são com os seus filhos. Essa mais velha também defende que é bom termos filhos cedo para que os vejamos crescer e realizarem-se. Convenhamos que esse é um bom argumento, ainda mais em África onde a esperança de vida é baixa. Mas como a esperança de vida na Europa é alta, talvez por isso as pessoas esperam que apareçam os cabelos brancos para mudar fraldas...

Por outro lado me pergunto até que ponto a liberdade quase infinita que temos actualmente nos torna pessoas egoistas. Descobrimos que temos muitos EUs dentro de nós que pedem para serem soltos, e o resto das coisas importantes da vida vão ficando pelo caminho. E como o ponteiro do relógio não pára...
Já ouvi histórias surpreendentes aqui: "não podemos namorar porque no momento estou muito concentrado na faculdade.", "tou a fazer uma cadeira díficil, tenho de me dedicar a ela.", etc. Parece que hoje não se consegue diferenciar os "departamentos", é como se as pessoas tivessem instituido a teoria dos vasos comunicantes nas suas vidas... Ou será que as pessoas de hoje são tão frageis que não tem capacidade para gerir em simultâneo os diversos "departamentos" da vida? Enfim, poderia continuar a levantar milhares de questões se não tivesse mais que fazer...

terça-feira, 26 de junho de 2012

ONG Justiça Ambiental impedida de entrar no Brasil

Há cerca de duas semanas as autoridades brasileiras impediram a entrada do activista moçambicano Jeremias Vunhenje no país. As justificações para tal procedimento são descabidas, de acordo com o activista, e uma delas é a acusação de tráfico de drogas. O activista da ONG Justiça Ambiental ia participar nas Cimeiras dos Povos e Rio+20. Vunhenje, entretanto, chega na segunda-feira (18.06.12)ao Brasil depois de ter conseguido um novo visto. Mas a ONG moçambicana exige das autoridades brasileiras um pedido de desculpas e já garantiu que vai investigar o caso. A JA tem algumas suspeitas, mas Jeremias Vunhenje conta primeiro como tudo aconteceu:


Jeremeias Vunhenje: Embarquei no dia 12 para o Brasil, e nos serviços de migração do país a agente, sem falar comigo, gritou para o colega "impedido". Ela foi falar com o colega e mandaram-se aguardar. Passados cerca de 30 minutos o polícia disse-me que seria recambiado. Eles não me explicaram as razões, apenas disse que a polícia federal tinha competências para fazer o seu trabalho. Insiste, apresentei a minha carta convite, a reserva de hotel, mas eles não quiseram saber. Eles escoltaram-se até a sala de embarque, e insite mais uma vez, mas um dele disse-me: "O senhor vem cá faz confusões, esteve cá em maio e estás a ser procurado porque está envolvido no tráfico de drogas."

NI: A JA tem alguma suspeita para esta atitude?
JV: Temos sim, mas acima de tudo estamos indignados e perplexos com a decisão das autoridades brasileiras. Não nos foi dada uma explicação plausível para a proibição da entrada de um membro da sociedade civil num encontro das Nações Unidas.

NI:  E que nos falar das suspeitas da JA?
JV: Achamos que não é uma decisão tomada ao acaso, agora quem eventualmente está por trás disso nós não sabemos e não temos provas. Sabemos sim, que a JA está envolvida em campanhas de denúncias e de defesa dos interesses das comunidades e que isso muitas vezes, até dentro de Moçambique, tem sido alvo de críticas e até de ameaças. Percebemos que é mais um desses sinais de tentativa de nos calar.

NI: Associa isso a empresa Vale? Porque sabemos que a JA tem estado a trabalhar muito com o caso da Vale em Tete...
JV: A JA e eu próprio não associamos isso a alguma empresa, e muito menos a Vale. Agora é uma verdade que nos últimos seis meses nos batemos por todas as vias pelos interesses das famílias reassentadas pela Vale. Denunciamos por todos meios e com toda a contundência as péssimas condições que as famílas reassentadas enfrentam. Eu já fui levado para a esquadra em Cateme, onde sofremos intimidações. E é verdade que uma das actividades principais da JA no Rio de Janeiro era de fazer uma apresentação e expôr o caso da Vale, denunciando os maus procedimentos da empresa em Moçambique. E naturalmente a própria Vale, que por sinal financia a Rio+20, e o governo de Moçambique sabem que iamos expor o caso da Vale, todos estes estão interessados na forma como o projecto está a ser gerido, estão a acompanhar o nosso trabalho. Não temos provas disso, mas é uma hipótese eventualmente a admitir.

NI: O que a JA pretende fazer agora?
JV: No dia 14 tivemos um audiência com o Consul do Brasil em Maputo, e apresentamos as nossas exigências e uma delas é que o representante da JA voltasse o mais urgente para a conferência, e isso já foi possível. Deram-me um novo visto. A segunda exigência é a retirada do meu nome da lista do sistema nacional de procurados e impedidos do Brasil . A terceira é que façam um pedido de desculpas público e que assumam as consequências quer financeiras, quer morais da acusação contra mim,  puseram em causa a minha imagem e integridade.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Jimmy, o explorador





 Foto: Sérgio Mandlate

Quando ele sobe aos palcos suga tudo o que se pode imaginar da memória emocional colectiva dos moçambicanos. Não há reclamações, o público dá e pede para ser explorado. A sua viola invade períodos empoeirados dos público, tocando "amatuwe twe, twe" ou "gogo ni langi wene" e se arrasta até para espaços físicos dos genes do público. Esses são com certeza cobertos por tetos de zinco e envoltos em caniço: "Os do Chamanculo para o palco e mostrem que sabem dançar", e língua de comunicação é principalmente o Rhonga. Pelo menos a pessoas do sul de Moçambique e Jimmy Dludlu quase se confundem no momento do show.

Supostamente a maior parte das músicas que deveriam ser tocadas no espetáculo de Maio são do seu último album, mas tal não aconteceu. O músico soube prender o público com as músicas de albuns anteriores. Afinal Músicas e cheiros nos fazem viajar no tempo, não? Um público que na sua maioria tem mais de 30 anos aproveitou para se recordar dos anos oitenta.

Jimmy Dludlu é uma figura que preenche o palco. Vive plenamente o que faz, talvez por isso a sua música seja boa. A sua banda é fantástica, e nalguns momentos percebe-se que andam mesmo a mercê do músico e do seu feeling. Desconfiei até que já estava na hora de terminar o espetáculo, mas Dludlu não abandonava o palco. Ele tem  muito brilho, ofusca as coisas boas a sua volta, no bom sentido. Para as pessoas que não acreditam em Deus, aconselho-as as ouvirem e verem este homem. Ai perceberão que o dom que tem só pode ser algo divino. Amén.




segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma assinatura para o Bahrein

Uma assinatura para ajudar o povo do Bahrein. Este é o pedido da Amnistia Internacional numa esquina de Oslo. Comovente. O argumento para conseguir o "Nádia Issufo" na lista era que o país é uma monarquia, cujo povo luta por mais democracia e liberdade. Quase cai, peguei na lista e na esferográfica e o sorriso da mulher da AI se abriu mais, mas recuei e contra-argumentei: estavamos numa monarquia também (apesar de ter um governo democrático e haver respeito pela liberdade, factos conquistados as suas custas) e desejo verdadeiramente o bem estar do povo do Bahrein, mas acredito que essas conquistas tem de ser alcançadas internamente. E isso está a acontecer, não foi nenhum estrangeiro que enfretou a polícia, queimando pneus e bloqueando estradas neste fim de semana. Nem no ano passado quando dezenas de pessoas morreram em manifestações. Não escondo, a ajuda externa é um termo cujo enquadramento no meu catálogo é problemático. Devolvi a esferográfica e o papel, e o sorriso da mulher se manteve inalterável. Desejou-me uma boa estadia na cidade e aconselhou-me a visitar o Parlamento, que por sinal o Bahrein também possui e não foi com a ajuda externa.

No geral as revoluções no mundo árabe foram de natureza endogena, e hoje esses países continuam a traçar o seu percurso consoante a sua vivência, facto que de certo modo despontou a comunidade internacional, principalmente no que diz respeito a laicidade dos Estados. A islamização na política ganhou mais expressão, abrindo mais espaço para os radicais, que por sinal não tem poucos apoiantes, tal como os partidos europeus de extrema-direita tem cada vez mais apoiantes. Cada povo tem a sua história, seu rumo e seu estágio de desenvolvimento. Ajuda é bem vinda, ninguém faz conquistas sozinho, mas como dosea-la para não se transformar em intromissão, prepotência, e em atitude de "ohh, coitadinhos"?