"Filho, vai para a escola aprender a vencer sem ter razão", disse a mãe de um famoso escritor africano no tempo colonial. O conselho continua atual.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Encontro casual com o saber
Numa caminhada ao longo de um parque verde de Bona, uma estante de livros se põe a frente de mim. Sim, porque não estou a espera dela, tal como a maioria dos mortais não está a espera desta irreverente inovação. E mais alguns encontros destes acontecem um pouco pela cidade, gracas a um cupido chamado municipio-municípe. Sou informada que as estantes são alimentadas por generosos anónimos, dispostos a partilhar o que tem, desprovidos de egoismo e a estante, claro, disponibilizada pelo município. Qualquer pessoa pode levar um livro sem ter de passar pelo bibliotecário, e melhor, sem passar por burocracias. Mas tem de o devolver a estante, "afinal o saber nao pode ficar refem de ninguém", disse isso um colega meu numa reunião em 2004, referindo-se a colegas que dominavam determinadas técnicas de trabalho, mas que se recusavam a passar aos outros. Se a maioria fosse "grande", o mundo seria menos pobre em todos os sentidos.
Entretanto, nem todos os que dão os livros é porque estão preocupados em alimentar mentes alheias. Uns o fazem porque se querem livrar dos excessos que tem em casa, e aliviam-se na bibliotecas livres. E também porque a mobilidade domina o estilo de vida de hoje, os livros tornam-se um peso na hora de correr a mala para outro pouso temporário. Na verdade não interessa o que originou a doação dos livros, o que interessa é que eles estão lá e circulam. São exemplos desses que gostaria de levar para o meu país, com a boa vontade e a generosidade de quem tem pouco, mas que quer ver as coisas andarem. Até me lembro da frase "onde come um come dois, onde come dois come três...", que no meio onde vivo é percebido mesmo ao pé da letra. No caso do saber vale lembrar no sentido figurado mesmo que "onde lê um, podem lêr um milhão..."
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Guiné-Bissau não contraria expectativas, e vive mais um golpe
Mais um golpe de Estado teve lugar na última noite na Guiné-Bissau. Era previsivel, e os factos comprovam isso: o descontentamento dos militares, e possivelmente outras forças políticas do país, face a presença da Missang, a missão militar angola de apoio a reforma do sector de defesa no país, e em resultado disso a manifestação clara desse desagrado por parte de António Indjai, chefe das forças armadas nos últimos dias. E ainda nesta cadeia, o anúncio da retirada da Missang esta semana. Qualquer um que acompanhe as notícias esperava por isso, e os guineenses mais ainda, tanto é que se manifestaram solicitando a permanência da "Semsangue" em seu território.
Cadogo, não se joga dos dois lados
Como se diz, Cadogo tem o rabo preso com os militares. Até porque não se explica como depois deste ter sido preso por António Indjai em 2010, e ter expulso o ex-chefe das forças armadas Zamora Induta, Indjai, para a surpresa geral, ter sido nomeado para liderar o exército. Lembrem-se, isto custou a Guiné-Bissau fortes repressões e quase "sanções" internacionais.
Por outro lado esse homem com rabo preso mostra que quer "limpar" a casa, e talvez aproveitando a boa imagem do falecido presidente Malam Bacai Sanhá quase conseguiu, pelo menos aos olhos de quem não o conhece... Carlos Gomes Júnior jogou a sua grande cartada quando conseguiu o apoio de Angola. Ele tinha de jogar o jogo de Luanda, ou seja ficar com rabo preso tambem. Também um golpe militar falhou graças a intervenção da "Semsangue", Carlos Gomes Júnior não se transformou num cuador de sangue dessa vez por causa de Luanda. Pode um único rabo estar em duas mãos?
Os louros de Angola no meio da confusão
A comunidade internacional, em particular a ONU, nunca colocou ordem na Guiné-Bissau, embora constantes arbitraridedades tenham lugar naquele país. Angola aparece como o salvador da pátria com a sua "Semsangue", embora talvez movido por interesses "maiores", tais como um domínio no continente africano em termos diplomáticos e claro, interesses económicos. Esquecendo as ambições "expansionistas" de Luanda, deve-se reconhecer que enquanto a sua missão esteve em Bissau pelo menos a população, uma vez em muitos anos, se sentiu segura. Mas que mensagem quiz passar o governo angolano com a retirada dos seus homens? Não acredito que tenha sido só o descontentamento dos militares que ditou a sua retirada. Mas seja qual for o motivo, Luanda mostrou que é possível manter minimamente bem a Guiné-Bissau dentro dos carris.
Acabar com o pão dos militares?
Se por um lado algumas correntes preferem apontar o sentimento de inferioridade por parte dos militares guineenses como principal motivo para querer a "Semsangue" fora do país, eu quero acreditar que os militares "graudos" não querem que acabem com o seu pão. Quem compactua e ganha com o narcotráfico na Guiné? Todos sabem que são principalmente os militares que não estão na mão do governo. Alguns políticos no governo já tem o seu nome associado a esse negócio também. A Guiné-Bissau é dominada por uma máfia. Tentar entender os meandros do crime em que se assenta esse país é uma ginástica escabrosa. Mas de uma coisa estou certa: esses militares não tem amor a sua vida, e portanto a vida da população não lhes diz nada.
Kumba Ialá pega em armas?
Notei uma clara tendência de alguns jornais associarem implicitamente o golpe militar com a figura de Kumba Ialá, um dos prováveis vencedores das presidenciais. A ser verdade esta suposição, pode-se perpetuar a sujidade nesse quintal do narcotráfico, com alianças questionáveis. A história da Guiné-Bissau mostra que não se pode subestimar este candidato, visto por muitos como louco. Já foi presidente graças também ao voto étnico que tem peso no país. Portanto, só esses dois factores já lhe podem garantir o lugar nos comandos do país. E depois fala-se em democracia, quando o que dita a vitória são outras coisas...
Cadogo, não se joga dos dois lados
Como se diz, Cadogo tem o rabo preso com os militares. Até porque não se explica como depois deste ter sido preso por António Indjai em 2010, e ter expulso o ex-chefe das forças armadas Zamora Induta, Indjai, para a surpresa geral, ter sido nomeado para liderar o exército. Lembrem-se, isto custou a Guiné-Bissau fortes repressões e quase "sanções" internacionais.
Por outro lado esse homem com rabo preso mostra que quer "limpar" a casa, e talvez aproveitando a boa imagem do falecido presidente Malam Bacai Sanhá quase conseguiu, pelo menos aos olhos de quem não o conhece... Carlos Gomes Júnior jogou a sua grande cartada quando conseguiu o apoio de Angola. Ele tinha de jogar o jogo de Luanda, ou seja ficar com rabo preso tambem. Também um golpe militar falhou graças a intervenção da "Semsangue", Carlos Gomes Júnior não se transformou num cuador de sangue dessa vez por causa de Luanda. Pode um único rabo estar em duas mãos?
Os louros de Angola no meio da confusão
A comunidade internacional, em particular a ONU, nunca colocou ordem na Guiné-Bissau, embora constantes arbitraridedades tenham lugar naquele país. Angola aparece como o salvador da pátria com a sua "Semsangue", embora talvez movido por interesses "maiores", tais como um domínio no continente africano em termos diplomáticos e claro, interesses económicos. Esquecendo as ambições "expansionistas" de Luanda, deve-se reconhecer que enquanto a sua missão esteve em Bissau pelo menos a população, uma vez em muitos anos, se sentiu segura. Mas que mensagem quiz passar o governo angolano com a retirada dos seus homens? Não acredito que tenha sido só o descontentamento dos militares que ditou a sua retirada. Mas seja qual for o motivo, Luanda mostrou que é possível manter minimamente bem a Guiné-Bissau dentro dos carris.
Acabar com o pão dos militares?
Se por um lado algumas correntes preferem apontar o sentimento de inferioridade por parte dos militares guineenses como principal motivo para querer a "Semsangue" fora do país, eu quero acreditar que os militares "graudos" não querem que acabem com o seu pão. Quem compactua e ganha com o narcotráfico na Guiné? Todos sabem que são principalmente os militares que não estão na mão do governo. Alguns políticos no governo já tem o seu nome associado a esse negócio também. A Guiné-Bissau é dominada por uma máfia. Tentar entender os meandros do crime em que se assenta esse país é uma ginástica escabrosa. Mas de uma coisa estou certa: esses militares não tem amor a sua vida, e portanto a vida da população não lhes diz nada.
Kumba Ialá pega em armas?
Notei uma clara tendência de alguns jornais associarem implicitamente o golpe militar com a figura de Kumba Ialá, um dos prováveis vencedores das presidenciais. A ser verdade esta suposição, pode-se perpetuar a sujidade nesse quintal do narcotráfico, com alianças questionáveis. A história da Guiné-Bissau mostra que não se pode subestimar este candidato, visto por muitos como louco. Já foi presidente graças também ao voto étnico que tem peso no país. Portanto, só esses dois factores já lhe podem garantir o lugar nos comandos do país. E depois fala-se em democracia, quando o que dita a vitória são outras coisas...
terça-feira, 3 de abril de 2012
FMI conclui financiamento a Angola em meio de polémica
O Fundo Monetário Internacional (FMI) desembolsou, na última quarta-feira (28.03), a tranche final do empréstimo solicitado por Angola, em 2009, apesar dos apelos contrários feitos pelas ONGs de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) e Revenue Watch Institute.Para estas organizações, o congelamento do empréstimo seria uma forma de pressionar Luanda a justificar, de forma satisfatória, o desaparecimento de somas avultadas dos cofres do Estado e a implementar mais medidas para o fim da corrupção e o aumento da transparência. Em entrevista à DW África,conduzida por mim, Jean-Marie Fardeau, da HRW, explica melhor o que os moveu nesta iniciativa gorada.
Jean-Marie Fardeau: A Human Rights Watch e a Revenue Watch são as duas organizações que decidiram solicitar ao FMI que não desbloqueie os 130 milhões de dólares para Angola, por causa de uma questão que temos há vários meses sobre a utilização, pelo governo angolano, de 32 mil milhões de dólares que estão em falta na contabilidade nacional do país. Para nós, as respostas de Angola, depois dessa descoberta, não são suficientes e não correspondem à esperança que temos de ter certeza de que este dinheiro foi usado no interesse do povo angolano.
Nádia Issufo: Mas, ao impedir a libertação da última tranche também os projetos de desenvolvimento de Angola podem ficar comprometidos...
JMF: Para nós, a questão da má gestão e da corrupção são coisas muito importantes, que prejudicam ainda mais o desenvolvimento de um país que o facto de receber, agora ou daqui há um mês, um empréstimo de 130 milhões de dólares. Sabemos que Angola fez esforços para melhorar a transparência da contabilidade ligada à exploração petrolífera do país. Mas esse problema dos 32 mil milhões de dólares, o facto de que a comissão de investigação que foi nomeada pelo governo não ter dado ainda os resultados completos, cria uma situação que para nós não justifica a disponibilização de 130 milhões de dólares. Este dinheiro é só uma parte de um empréstimo de mais de mil milhões de dólares, cuja maior parte já foi dada a Angola.
NI: Apesar do não esclarecimento do desaparecimento desses 32 mil milhões de dólares dos cofres do Estado angolano, o país recebeu elogios do FMI pelo bom desempenho económico. Isso não constitui um paradoxo?
JMF: Sim, é um paradoxo ver o FMI felicitar Angola pelo desempenho económico, apesar de continuarem em Angola os problemas de má gestão e de falta de transparência sobre o uso do dinheiro público. Também é importante lembrar que Angola continua numa posição muito afastada em relação ao nível de desenvolvimento económico e de desenvolvimento humano. Ocupa a posição de número 148 entre os países do mundo em relação ao desenvolvimento humano - da educação das crianças e da saúde - apesar dos recursos enormes do país. Então, essa diferença entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento humano é obviamente um problema para nós.
NI: A HRW vê algum tipo de melhoria em Angola no que diz respeito à transparência e à corrupção?
JMF: A HRW e o RWI consideram que o governo de Angola adoptou algumas medidas para melhorar a transparência e a gestão do setor petrolífero. Mas, para nós, isso ainda não é suficiente. Faltou ao FMI a oportunidade de pedir a Angola que melhore ainda mais a gestão dos recursos naturais e financeiros do país, que já permitiram a Angola limitar e reduzir a dívida externa, mas continuam os problemas de uso do dinheiro em benefício do povo e das necessidades sociais do país. Esse problema do uso do dinheiro público é uma questão que, para nós, ainda não está resolvida em Angola.
Para ouvir esta entrevista consulte: http://www.dw.de/dw/article/0,,15848969,00.html
Selecione a emissao da manha do dia 30 de Marco
Jean-Marie Fardeau: A Human Rights Watch e a Revenue Watch são as duas organizações que decidiram solicitar ao FMI que não desbloqueie os 130 milhões de dólares para Angola, por causa de uma questão que temos há vários meses sobre a utilização, pelo governo angolano, de 32 mil milhões de dólares que estão em falta na contabilidade nacional do país. Para nós, as respostas de Angola, depois dessa descoberta, não são suficientes e não correspondem à esperança que temos de ter certeza de que este dinheiro foi usado no interesse do povo angolano.
Nádia Issufo: Mas, ao impedir a libertação da última tranche também os projetos de desenvolvimento de Angola podem ficar comprometidos...
JMF: Para nós, a questão da má gestão e da corrupção são coisas muito importantes, que prejudicam ainda mais o desenvolvimento de um país que o facto de receber, agora ou daqui há um mês, um empréstimo de 130 milhões de dólares. Sabemos que Angola fez esforços para melhorar a transparência da contabilidade ligada à exploração petrolífera do país. Mas esse problema dos 32 mil milhões de dólares, o facto de que a comissão de investigação que foi nomeada pelo governo não ter dado ainda os resultados completos, cria uma situação que para nós não justifica a disponibilização de 130 milhões de dólares. Este dinheiro é só uma parte de um empréstimo de mais de mil milhões de dólares, cuja maior parte já foi dada a Angola.
NI: Apesar do não esclarecimento do desaparecimento desses 32 mil milhões de dólares dos cofres do Estado angolano, o país recebeu elogios do FMI pelo bom desempenho económico. Isso não constitui um paradoxo?
JMF: Sim, é um paradoxo ver o FMI felicitar Angola pelo desempenho económico, apesar de continuarem em Angola os problemas de má gestão e de falta de transparência sobre o uso do dinheiro público. Também é importante lembrar que Angola continua numa posição muito afastada em relação ao nível de desenvolvimento económico e de desenvolvimento humano. Ocupa a posição de número 148 entre os países do mundo em relação ao desenvolvimento humano - da educação das crianças e da saúde - apesar dos recursos enormes do país. Então, essa diferença entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento humano é obviamente um problema para nós.
NI: A HRW vê algum tipo de melhoria em Angola no que diz respeito à transparência e à corrupção?
JMF: A HRW e o RWI consideram que o governo de Angola adoptou algumas medidas para melhorar a transparência e a gestão do setor petrolífero. Mas, para nós, isso ainda não é suficiente. Faltou ao FMI a oportunidade de pedir a Angola que melhore ainda mais a gestão dos recursos naturais e financeiros do país, que já permitiram a Angola limitar e reduzir a dívida externa, mas continuam os problemas de uso do dinheiro em benefício do povo e das necessidades sociais do país. Esse problema do uso do dinheiro público é uma questão que, para nós, ainda não está resolvida em Angola.
Para ouvir esta entrevista consulte: http://www.dw.de/dw/article/0,,15848969,00.html
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sexta-feira, 23 de março de 2012
Angola tem uma CASA
A mais nova formação política de Angola anunciou, nesta terça-feira, o seu primeiro congresso. A CASA, Convergência Ampla para a Salvação de Angola, fundada recentemente por dissidentes da UNITA, o maior partido da oposição no país. A liderar a CASA está Abel Chivukuvuku, ex-membro sénior da UNITA. De lembrar que estas mudanças políticas acontecem a menos de cinco meses das eleições gerais. Em entrevista à DW África, conduzida por mim, o investigador angolano Nelson Pestana faz uma análise do novo cenário político em Angola:
Nádia Issufo: Irá esta fragmentação da oposição angolana beneficiar o partido no poder, MPLA?
Nelson Pestana: Não creio que o MPLA possa beneficiar do facto de um grupo de pessoas ter saído da UNITA e com outras pessoas e outras formações políticas ter constituído a CASA. Acho que não tem necessariamente que beneficiar, na medida em que o eleitorado do MPLA não é necessariamente o eleitorado da CASA.Por outro lado, um provável enfraquecimento da UNITA não beneficia diretamente o M PLA. A CASA vai procurar um eleitorado que, sendo originariamente da UNITA, estava descontente e que, por este motivo, provavelmente iria votar numa outra formação política que seguramente não era o MPLA.
NI: Como fica a UNITA, agora desfalcada e com a formação da CASA? Afinal, foram membros seniores do partido que criaram a CASA.
NP: É verdade que são quadros muito importantes, mas que estavam numa situação de exílio interno na UNITA e, por isso, acho que o país ganha com a formação da CASA - na medida em que permite devolver à política ativa esses quadros que as pessoas reconhecem como importantes. Por isso, do meu ponto de vista, em termos de representatividade e de uma procura de qualidade do político, o país acaba por ganhar com a formação da CASA.
NI: Esta cisão da UNITA, quando as eleições estão quase à porta, tem um significado particular?
NP: Era já uma saída anunciada, porque no interior da UNITA fecharam todas as portas à possibilidade de coexistência desse conjunto de pessoas na UNITA perfeitamente inativas. A UNITA hoje é dominada pelo presidente [Isaías] Samakuva, que tem uma tendência cada vez mais concentradora do poder. Por isso, o Abel Chivukuvuku e o grupo de pessoas que o seguiu contavam já muito pouco no interior da UNITA.
NI: Face ao surgimento da CASA e à existência de muitos partidos em Angola, pode-se dizer que a oposição está fragmentada?
NP: Todas as oposições são fragmentadas. Nós temos a tendência de falar em oposição, mas a verdade é que na realidade são sempre oposições. Aqui, como há uma tradição de partido único, a tendência é transformar a oposição também numa oposição de partido único. Uma espécie de que o ideal para estes países era uma bipolarização. Não acho que o facto de haver vários partidos políticos seja sinónimo de fragilidade da oposição. Agora, é preciso perceber o que é oposição e o que são partidos políticos que apoiam a coligação presidencial, mas que se continuam a designar oposição só porque não fazem parte do partido único.
A fragmentação orgânica da oposição não impede a concentração em plataformas políticas comuns para se atingirem objetivos comuns. Não impede também que cada um carregue o seu peso político nas eleições e depois, no pós eleitoral, se venham a formar coligações governamentais. Isso acontece nos outros países, porque não há de acontecer em Angola?
Nádia Issufo: Irá esta fragmentação da oposição angolana beneficiar o partido no poder, MPLA?
Nelson Pestana: Não creio que o MPLA possa beneficiar do facto de um grupo de pessoas ter saído da UNITA e com outras pessoas e outras formações políticas ter constituído a CASA. Acho que não tem necessariamente que beneficiar, na medida em que o eleitorado do MPLA não é necessariamente o eleitorado da CASA.Por outro lado, um provável enfraquecimento da UNITA não beneficia diretamente o M PLA. A CASA vai procurar um eleitorado que, sendo originariamente da UNITA, estava descontente e que, por este motivo, provavelmente iria votar numa outra formação política que seguramente não era o MPLA.
NI: Como fica a UNITA, agora desfalcada e com a formação da CASA? Afinal, foram membros seniores do partido que criaram a CASA.
NP: É verdade que são quadros muito importantes, mas que estavam numa situação de exílio interno na UNITA e, por isso, acho que o país ganha com a formação da CASA - na medida em que permite devolver à política ativa esses quadros que as pessoas reconhecem como importantes. Por isso, do meu ponto de vista, em termos de representatividade e de uma procura de qualidade do político, o país acaba por ganhar com a formação da CASA.
NI: Esta cisão da UNITA, quando as eleições estão quase à porta, tem um significado particular?
NP: Era já uma saída anunciada, porque no interior da UNITA fecharam todas as portas à possibilidade de coexistência desse conjunto de pessoas na UNITA perfeitamente inativas. A UNITA hoje é dominada pelo presidente [Isaías] Samakuva, que tem uma tendência cada vez mais concentradora do poder. Por isso, o Abel Chivukuvuku e o grupo de pessoas que o seguiu contavam já muito pouco no interior da UNITA.
NI: Face ao surgimento da CASA e à existência de muitos partidos em Angola, pode-se dizer que a oposição está fragmentada?
NP: Todas as oposições são fragmentadas. Nós temos a tendência de falar em oposição, mas a verdade é que na realidade são sempre oposições. Aqui, como há uma tradição de partido único, a tendência é transformar a oposição também numa oposição de partido único. Uma espécie de que o ideal para estes países era uma bipolarização. Não acho que o facto de haver vários partidos políticos seja sinónimo de fragilidade da oposição. Agora, é preciso perceber o que é oposição e o que são partidos políticos que apoiam a coligação presidencial, mas que se continuam a designar oposição só porque não fazem parte do partido único.
A fragmentação orgânica da oposição não impede a concentração em plataformas políticas comuns para se atingirem objetivos comuns. Não impede também que cada um carregue o seu peso político nas eleições e depois, no pós eleitoral, se venham a formar coligações governamentais. Isso acontece nos outros países, porque não há de acontecer em Angola?
terça-feira, 20 de março de 2012
MPLA: o Vicente da polémica
Em Angola, a nomeação do ex-presidente da Sonangol, Manuel Vicente, para o cargo de ministro de Estado divide o MPLA, o partido no poder. Especula-se que Manuel Vicente esteja a ser preparado para ocupar o cargo de vice-presidente do país, já com objetivos específicos. Recorde-se que Vicente não tem experiência política, embora acumule prestígio internacional como gestor. Entrevistei, para a DW, o analista da Chatam House, Markus Weimer, sobre o assunto:
Markus Weimer: Na minha opinião, seria muito surpreendente se qualquer desafio que surgiu dentro do MPLA aparecesse fora do MPLA. Acho que é bem claro que havia várias opiniões acerca da sondagem do Manuel Vicente. Mas isso sempre foi dito dentro do partido. Fora do MPLA esses debates não acontecem. Para mim, seria uma grande surpresa se isso agora mudar. Não estou a ver qualquer divisão pública do MPLA.
Nádia Issufo: Provavelmente, existem dentro do partido pessoas com uma longa carreira política e que projetavam chegar a um lugar de destaque no governo. Até que ponto um provável descontentamento pode criar uma cisão mais forte, mesmo que isso não venha a público?
MW: Acho que já tinha oposição dentro do partido acerca do Manuel Vicente. Nós ouvimos que a publicação da lista dos deputados para as eleições deste ano já foi adiada três vezes. Isso já dá uma indicação de que nem tudo está bem dentro do partido, em termos de sequência. O Manuel Vicente deveria chegar à segunda posição nesta lista, mas é exatamente isso que gera oposição dentro do partido.
Em todos os partidos do mundo, há debate acerca da sequência da lista e da importância das pessoas. Especialmente se estamos num ano de eleições, que devem ser as últimas eleições do atual presidente, os interesses dos vários protagonistas dentro do partido ainda são maiores. Mas a situação em Angola também é uma em que o presidente e o seu círculo íntimo têm muito poder no sistema. Mesmo se há oposição à pessoa do Manuel Vicente, não vejo isso mudar alguma coisa.
Nádia Issufo: Alguns analistas políticos acreditam que a nomeação de Manuel Vicente para o cargo de ministro de Estado para a Coordenação Económica é uma espécie de rodagem política para legitimar sua futura nomeação ao cargo de vice-presidente de Angola. Visualiza uma situação similar à da Rússia, entre Vladimir Putin e Dmitri Medvedev, em que José Eduardo dos Santos possa vir a trocar de funções com Manuel Vicente?
MW: Sim, pode-se ver isso desta maneira. Mas a situação na Rússia é que o Vladimir Putin voltou ao cargo de presidente. Não sei se podemos imaginar algo similar em Angola. Não vejo o presidente Dos Santos voltar ao poder, se ele deixa o Manuel Vicente ser presidente.
Nádia Issufo: Nomear alguém de sua confiança no partido pode ser visto como uma garantia de que José Eduardo dos Santos continue a governar o país a partir dos bastidores, ou até evitar que seja julgado por alguma irregularidade após a sua saída do poder?
MW: Esse é o aspecto mais relevante sim. Como aconteceu na Zâmbia, onde o presidente Frederick Chiluba deixou o poder e depois foi julgado por vários assuntos, incluindo corrupção. O José Eduardo dos Santos, presidente de Angola, viu isso. Acredito que ele tenha medo desse cenário.
Então, para ele seria mesmo uma boa estratégia ter na presidência um sucessor em quem ele possa confiar e não os julgamentos por alegados crimes. O Manuel Vicente é uma pessoa dessas. É uma pessoa de confiança, muito próxima do presidente. Acho que o José Eduardo dos Santos pode confiar nele.
Ouiça também a entrevista em: http://www.dw.de/dw/0,,9585,00.html
selecionando a emissão da manhã do dia 20 de Março
quarta-feira, 7 de março de 2012
Isabel dos Santos pode se sair mal na queixa contra jornal italiano
"A honra e as mentiras de Isabel dos Santos" é o mais recente artigo publicado por Rafael Marques. Nele o~investigador e defensor dos direitos humanos angolano apresenta factos que comprovariam que a filha do presidente angolano para defender a sua honra lesou a honra do povo angolano, tal como apresenta argumentos falsos relativos a governação do seu pai. É que Isabel dos Santos processou em Julho de 2007 o Jornal italiano "La Stampa" e três dos seus jornalistas pela publicação de um artigo sobre a sua participação em negócios, acusando-a de corrupção, favoritismo e outras coisas. Em breve a Procuradoria de Turim, na Itália, deverá decidir sobre o caso. Sobre o assunto Rafael Marques em entrevista a DW o seguinte:
Chega a ser imcomprensivel como a senhora Isabel dos Santos, cujos negócios em Angola são bem conhecidos, possa apresentar uma queixa a dizer que não administra absolutamente nada. E por outro lado queira se envolver em política fazendo afirmações como, por exemplo que o seu pai foi eleito em 1979, quando nessa altura viviamos sob um regime marxista-leninista que não permitia eleições e nem sequer a existência de outros partidos. É de conhecimento geral que o seu pai não ganhou as eleições presidenciais de 1992 contra Jonas Savimbi na primeira volta e nunca houve segunda volta. Ela faz uma série de declarações, e quando fala na honra dos angolanos, mentido, isso é grave e é preciso que seja denunciada e que a verdade seja reposta.
Nádia Issufo: E essas mentiras de Isabel dos Santos, como considera, envolvendo o nome do presidente angolano, em que medida põe em causa a sua credibilidade?
RM: Não põe em causa porque ele não tem credibilidade nenhuma em Angola. O que Isabel dos Santos faz, é o que o pai faz todos os dias. Se o presidente tem alguma credibilidade é de continuar a assinar os contratos petrolíferos, mantendo-se no poder como figura com quem o mundo precisa de negociar. Internamente não tem credibilidade, volta e meia fala na construção de um milhão de casas e depois nem conseguem dar duas mil casas aos mais desfavorecidos. E é necessário que os angolanos tomem cada vez mais consciência da necessidade de se afirmarem como cidadãos e terem uma intervenção pública muito mais activa para evitar esse tipo de situações em que aqueles que estão no poder se acham no direito de dizer o que bem entendem sem ser desmentidos por falta de órgãos que possam difundir mensagens contrárias ao poder.
NI: Ao usar argumentos falsos, como diz no seu artigo, pode se depreender que a senhora Isabel dos Santos não se sairá bem nesta sua queixa contra o jornal italiano?
RM: De certeza que não, porque não se pode apelar a justiça para defender a honra apresentando mentiras. É contraditório e contraproducente. E noutras situações ela até poderia ser acusada de perjúrio, de estar a enganar a justiça. Mas ela é filha do presidente isso certamente não vai acontecer.
terça-feira, 6 de março de 2012
Porque Nampula Afonso Dhlakama?
Depois que o MDM "tirou"a cidade da Beira das mãos da RENAMO não restava a este último partido outra saída senão procurar outro bastião, e a cidade escolhida foi Nampula. Mas porque então Afonso Dhlakama não escolheu Chimoio, por exemplo, onde provavelmente tem mais apoios do que Nampula? Ou até Quelimane, antes de também ser tomada pelo MDM? Afinal não é a região centro de Moçambique dominada pela RENAMO?
Nampula é a capital do norte, economicamente é uma das mais dinámicas do país. A médio e longo prazo a província com o mesmo nome, economicamente, poderá ser ela "sozinha" Moçambique. Ela dispõe de enormes recursos naturais que estão a ser alvo de grandes investimentos. Tem um importante porto de águas profundas, e prevê-se a construção de um porto petrolífero. O chamado Corredor do Norte vai ser alvo de investimento para facilitar as exportações, principalmente do carvão mineral da província de Tete. Na região Norte de Moçambique foram descobertas enormes quantidades de gás natural, do petróleo nada se fala, mas que há fumo, há... Isso sem falar da construção de um aeroporto internacional e do incremento do parque industrial.
Entretanto, boa parte dos investimentos para fazer esse sonho se tornar realidade vem de fora. Quem quererá investir ou viver numa província com "outro" governo, ou com um governo paralelo? Porque ao que tudo indica Afonso Dhlakama está empenhado em mostrar que manda lá, com a presença de homens armados pela cidade e constantes ameaças de manifestações, obviamente indesejadas pelo governo da Frelimo. A última experiência marcou bem o partido do batuque e da maçaroca. Será por isso que o presidente Armando Guebuza se dignou a ir ao encontro do líder da RENAMO na capital do norte no ano passado? Os moçambicanos sabem muito bem, que Guebuza quase nunca abandona a sua cadeira para se dirigir aos outros, a menos que isso faça parte da sua agenda de trabalho, como por exemplo nas presidências abertas... E não nos esqueçamos que os negócios de grande envergadura quase sempre tem participação de gente ligada ao governo da Frelimo... Haja empenho!
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