quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A arte de destruir para recon$truir

A companhia aérea francesa, Air France, ganhou um contrato para manutenção de aviões de duas companhias públicas líbias, segundo informações do secretário de Estado do Comércio Externo francês. Já vi este filme antes, os Estados Unidos da América invadiram o Iraque, rico em petróleo, destruiram o país e depois as suas empresas ganharam os concursos para o reconstruirem. Agora é a França, principal protagonista na intervenção militar estrangeira na Líbia, também rico em petróleo, que opta pela mesa linha. 

Pierre Lellouche, que esteve em Tripoli nesta terça-feira, fez-se acompanhar por uma delegação de representantes de empresas como a Total, Alstom, esta que também volta a fornecer materiais a empresa de electricidade Gecol, Acatel e France Telecom.

Assim a França aumenta as suas exportações e terá garantida uma fonte de matéria prima, é desta forma que se sustentam as grandes potências. E com a crise financeira e conómica, esta jogada veio de certeza em boa hora. Resta agora saber qual foi o nível de "transparência" do tal concurso. Restava outra alternativa ao Conselho Nacional de Transição se não "pagar" a França por lhe ter colocado no poder? E isto as organizações de defesa dos direitos humanos e pela transparência, demasiado citadas pelas rádios internacionais, preferem não saber, estão demasiado preocupadas com as contas angolanas, equatorial-guineenses, etc.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Frelimo procura "forca da mudanca"

Foto: Ismael Miquidade

Manuel de Araújo do MDM, partido com menor representatividade no parlamento mocambicano, venceu as eleicoes no municipio de Quelimane, conquistando assim a segunda cidade depois da Beira. Aos poucos esta formacao vai marcando uma "viragem" nas tendencias políticas do país, primeiro ao derrubar a supremacia da Frelimo, o partido no poder há trinta e seis anos, e segundo por derrubar todos os dias, com atitude, a Renamo do patamar de maior partido da oposicao, embora este último tenha decidido boicotar as eleicoes ao nao participar.
A Frelimo se já sabia que nao podia se "deitar" tranquilamente sobre a sua hegemonia, agora tem de aprimorar a sua astúcia para se manter no poder. No caso do MDM nao será tao fácil de derrubar, afinal o garante do seu sucesso sao os jovens formados e conscientes, um grupo que deixa de ser minoria em Mocambique. Por outro lado a exigencia por maior independencia dos órgaos e processos eleitorais, algo conseguido aos poucos e de forma irreversivel, deixa menos campo manobra para o partido do batuque e da macaroca. Dividir para reinar, parece estratégia que já nao tem muitas chances, a crise recente dentro do MDM parece nao ter abalado em nada o partido, os resultados das eleicoes intercalares desta semana estao ai para confirmar.
Por outro lado a Frelimo enfrenta uma Renamo que embora enfraquecida, ainda tem os seus trunfos que a história lhe confere, entre outros. Hoje confunde-se Renamo com Afonso Dhlakama, algo que já inviabiliza a partida a credibilidade deste partido. Para além de se pautar por muitos discursos e poucas accoes, o partido perdeu o que ganhou, até o seu bastiao, a cidade da Beira! Nampula é agora casa de Dhlakama, de onde partiu a última ameaca de retorno a guerra que, inacreditavelmente, levou o presidente do país, Armando Guebuza, a subir até lá para o acalmar, nao imagino como...
A Renamo nao soube evoluir nas suas estratégias, continua agarrado ao discurso belicista, hoje algo quase surreal (nem tanto, porque Guebuza foi a Nampula...), mas acredito que a Frelimo ficou mais assustada com a capacidade de mobilizacao da Renamo para uma manifestacao, coisa que nenhum governo hoje deseja..., do que por um retorno a guerra. Esta atitude "primitiva" da Renamo, terá possivelmente também afastado a ala pensante do partido que saiu para formar o MDM.
Portanto, com esse desenho, uma fase nova e cheia de desafios que a Frelimo terá de enfrentar. Resta só saber se ela ainda tem jogo de cintura para tal, como sempre nos mostrou. Sem nos esquecermos que a saúde do próprio partido nao vai assim tao bem. Sera que já se desenha de verdade um "Futuro melhor" para Mocambique?

Um professor meu de História das Ideias zambeziano dizia em jeito de brincadeira que os seus conterraneos queriam ser independentes do resto de Mocambique, que eram um povo diferente. Que mocambicano nao tem uma historia para contar sobre um conhecido zambeziano? Que é vaidoso, bem arranjado, batalhador, bem falante, intelectual, assado ou cozido?
Se a vitória nao é a realizacao do velho sonho deles, é entao a oportunidade de serem eles mesmos!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

STP: O cacau do absurdo

No país do cacau o chocolate não é para o bolso de qualquer um, é muito caro, contou-me uma são-tomense. Um pequeno chocolate do nível "Toblerone" pode custar cerca de dois Euros e meio, um verdadeiro rombo para gente baixa renda, como por exemplo o plantador de cacau. Este não pode ter acesso ao resultado final do seu trabalho, embora não acredite que essa seja a sua principal preocupação, quando existe o pão para comprar, as propinas dos filhos, etc Mas seria bom, não?

Já em países desenvolvidos, onde existe muita gente de rendas médias e altas, o mesmo chocolate custa metade do preço. Não deixa de ser absurdo que África continue AINDA a ser apenas a fonte de matérias primas, nos moldes "primitivos" do tempo colonial e o produto acabado continue a ser vendido no continente a preços exorbitantes.

Entretanto, o chocolate faz as delícías dos povos desenvolvidos, dá fama e dinheiro, através do turismo, a cidades como Bruxelas, Brugge e outros lugares. Diz-se que a Alemanha é um dos maiores consumidores de chocolate do mundo, os franceses não ficam muito longe.

São Tomé e Príncipe já foi o maior produtor de cacau do mundo, e o seu cacau ainda tem fama pela qualidade, agora só produz duas mil toneldas por ano que são vendidas também a médios e grandes empresários do país a preços ditados pelo mercado internacional, que como se sabe são geralmente baixos. Por exemplo, muitos são-tomenses não sabem para que fábrica internacional o seu cacau é vendido. No país só existe uma fábrica artesanal, de um italiano, que segundo a minha fonte são-tomense, o chocolate nela produzido não é para o bolso do comum cidadão.

A Cesár o que é de Cesár

Na exposição de artes do povo Dogon, do Mali, que acontece no Kunstmuseum de Bona na Alemanha, vem-se objectos que representam a vida de várias etnias da região. Eles datam do período que vai do século XII até ao século... mas não pertecem aos seus legítimos proprietários, a gente de Dogon. Eles são propridade de famosos museus do velho continente, como o musee d´orsay em Paris, ou de pessoas individuais. Um absurdo, não é?

É verdade que o conhecimento e a arte devem ser pertença global, devem girar o mundo para que todos possam apreciar e aprender, mas como se diz "a Cesár o que é de Cesár", ou melhor "aos Dogon o que é dos Dogon." O que é legitimamente dos ocidentais que é pertença de algum país ou museu africano?
Já com os achados do Egipto antigo acontece a mesma coisa, grande parte deles são propriedade de museus europeus, e os arqueólogos egipcíos tentam, em vão, mover céus e terras para os ter de volta. Agora com a destruição de obras de arte no contexto das manifestações, alguns já vão ter argumentos para legitimar o seu açambarcamento...

E porque a exposição não era só de artefactos ou arte do povo Dogon, estava lá o GIZ, a cooperação técnica alemã, com direito ao seu espaço, a explicar que até 2010 gastou mais de 100 milhões de euros para a boa governação no Mali, para agricultura e outras coisas. Enfim, continua-se com a atitude paternalista e uma espécie de competição entre os "velhos" europeus sobre quem "dá" mais aos africanos...
Numa tentativa de denúncia, e talvez de afastamento, em relação aos seus antepassados, contam e mostram, com imagens nas paredes do museu, que na França, no tempo colonial, (não sei bem que critérios se usam para delimitar esse período...) existiam zoológicos humanos, onde colocavam africanos no seu habitat, entre eles os do Mali, para que os europeus os apreciassem.
Qual é a diferença entre a criação de um zoo humano de pretos e a apropriação da ancestralidade e história de um povo? Continua no fundo a ser uma colonização, só que muito sofisticada e dissimulada e sem definição de espaço, ou melhor, que agora ultrapassa o espaço geográfico e dá um grande pulo para uma espécie de apropriação de "genes". Com a globalização, ou colonização, depende de como se vê a coisa, só já não é preciso sair de casa, ser "antropologo"...

Mas será que alguém já pensou que se se fomentasse a criação de museus, por exemplo no Mali, aumentaria o turismo nesses lugares e com isso vinham as receitas para os cofres de Estado e assim também diminuiria o nível de pobreza no continente? Se bem que o conceito de pobreza também é relativo...
Da mesma maneira que "exportam" a democracia para África poderiam também exportar esses bons exemplos de venda de turismo, de que eles são campeões.
Assim os países desenvolvidos deixavam de dar "ajuda" aos subdesenvolvidos... Mas será que aos "ajudadores" interessa cortar este ciclo de dependência que fossiliza a cada dia?

Mais sobre este povo e sobre a exposição para ler e ouvir em:
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,6637724,00.html

25 anos Mutumbela Gogo: Fala você mesmo...

Os domingos da minha adolescência foram também preenchidos com teatro na companhia de amigos. Desciamos a pé para o Teatro Avenida para assisitir "O funeral de um rato", "Sexo? não obrigada!", "As mãos dos pretos", com direito a cortes de energia pelo meio, o que nos obrigava a voltar para casa frustrados.  As descidas até este lugar continuam, o grupo de Teatro Mutumbela Gogo pode dizer, no meu caso, que conseguiu "fidelizar o cliente"...  Hoje, para além de continuar na plateia, tenho a oportunidade de conhecer os bastidores desta casa, e com a comemoração dos seus 25 anos, mais motivos tenho ainda para cuscuvilhar... Comecei com Graça Silva:

Nádia Issufo: Que lugar ocupa o Mutumbela Gogo na tua vida?
Graça Silva: É a minha vida, o meu nascer até a minha morte.

NI: Imaginas-te divorciada do Mutumbela Gogo?
GS: Jamais! Mesmo de bengala eu vou pisar os palcos. Isso para dizer que o amor, a paixão e o estar bem comigo mesmo, passa por estar no Mutumbela Gogo e nos palcos.

NI: Conta-me, como vieste aqui parar?
GS: Fazia parte do grupo de teatro da escola Francisco Manyanga, onde estudava, e fui convidada a participar numa peça do Tchova Xitaduma  quando ouvi dizer que o Mutumbela estava a fazer um casting, isso cerca de um mês depois da sua fundação, vim ter com a Manuela Soeiro que me aceitou e desde lá faço parte do Mutumbela.

NI: Vocês festejam 25 anos de existência, qual é o significado desta data para ti?
GS: Significa muita coisa, desde aprendizagem da vida, das artes e no próprio teatro. Por exemplo, comecei a viver a vida com cerca de 20 anos; aprender a comportar-me e estar com as outras pessoas, começava a ter projectos e foi com essa idade que entrei no Mutumbela. Para mim isso é tão grande que nem há espaço no meu coração.

NI: Para além de seres actriz é mãe, esposa... como é conciliar tudo isso?
GS: Não é fácil, considero-me abençoada, por estar casada até hoje. Conheço muitas mulheres no mundo das artes que dificilmente conseguem se manter casadas. É uma luta diária que faço, eu gostaria de continuar com a minha familia porque também do teatro não me vou separar. Tento conciliar as duas coisas, estar com a minha família nos meus tempos livres.

NI: Como a tua família vê o "parente" Mutumbela Gogo"?
GS: Eles ficam com ciúmes, para eles o teatro está em primeiro lugar na minha vida, mas não é bem assim. Esta profissão requer muito de nós, consome-nos muito, principalmente quando viajamos eles sentem mais falta, porque as vezes ficamos meses fora. Quando estou cá é mais fácil porque dá para aproveitar determinados períodos, então eles consideram-se os segundos ou terceiros da família.

NI: Para além de seres actriz já encenas, estás a andar com as tuas próprias pernas. Queres falar dessa nova faceta?
GS: É um grande desafio e um desejo que sempre tive. A primeira peça que encenei foi uma grande aventura, tinha medo, não sabia se iria conseguir, da reacção do público, dos meus colegas, mas acho que consegui me sair bem e consegui seguir os passos do Mutumbela que é a minha escola e consegui transmitir aos outros actores com quem trabalhei o que tenho feito no Mutumbela, o que é muito benéfico.

NI: Já fizeste muitas peças, diz-me uma que te marcou...
GS: Estou dividida, tenho duas no coração; "Os meninos de ninguém" onde fiz o papel de Nascimento e a peça "Vestir a terra", foram trabalhos que me tocaram no fundo, sem querer menosprezar as outras peças.

NI: Agora estão a preparar as celebrações dos 25 anos...
GS: Nunca pensei que fossemos chegar a este nível de profissionalismo, é um agrande vitória para nós e acredito que será um grande exemplo para os fazedores do teatro em Moçambique, ou noutros lugares, para que haja um reconhecimento, e isso também lhes dará mais força e estimulo para continuarem neste mundo. É preciso muita persistência para fazer teatro em Moçambique.

NI: Como te sentes pelo reconhecimento do teu trabalho e por pertenceres a um grande grupo?
GS: É uma benção, é esse reconhecimento que nos faz continuar e é bom saber que sou útil para a sociedade.

NI: O que sonhas fazer ainda no Mutumbela Gogo?
GS: Termos uma escola de teatro, porque há muita gente que gostaria de aprender conosco, embora convidemos alguns actores para alguns trabalhos, mas com uma escola seria melhor. O outro sonho é continuar a fazer encenação e continuar no palco.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Mãe de quem?


Foto: Ismael Miquidade

Em África chamar mamã ou papá a outros que não são os pais é um sinal de respeito. Aprecio muito o gesto, e até se costuma dizer na minha terra que quando temos filhos, deixamos de ter identidade, passamos a ser "mãe de fulano...", "pai de fulano..."
As vezes também pode ser uma maneira "delicada" de chamar "cabeça dura", como se diz que os mais velhos são... Por exemplo, o meu instrutor da escola de condução chamava-me "mamã" quando eu cometia erros inadmissiveis...
Mas quando se chama mamã ou papá a um dirigente, qual é a intenção? Alguns o fazem por respeito, outros o fazem para responsabiliza-los, mas cada vez mais muitos assim o chamam porque são preguiçosos, e pensam que os dirigentes tem a obrigação de lhes providenciar o sustento e dizem: "o nosso pai tal vai construir uma escola para nós...", eles mantem com o seu líder uma relação permanente de filho menor e pai, ou seja, nunca atingem a maioridade. Deveres, obrigações são termos desconhecidos para muitos. Mais frequente ainda é ouvir os artistas dizerem na televisão moçambicana: "o governo não faz nada por nós..." e depois quando esses mesmos artistas morrem o governo é quem lhes compra o caixão, só não sei se por vergonha, ou porque se acha mesmo pai dos moçambicanos...
Esta observação surge por causa das recentes eleições presidencias na Libéria que reconduziram a "mamã" Ellen, como é conhecida no seu país, ao cargo. E também em Moçambique se chama a ex-primeira dama, Graça Machel, de "mamã", e um moçambicano que tinha mãe e não gostava nada que lhe atribuissem outra dizia: "mamã de quem??"

Afghanistan Tag im Deutschland

O cotidiano dos bonenses está um caos desde o fim de semana passado porque decorre na sua cidade uma das maiores cimeiras mundiais para discutir a situação do Afeganistão. E para quem gosta de filmes de acção de Hollywood, este é o cenário ideal para ser visitado, isso se a polizei deixar! Porque várias ruas estão fechadas nas proximidades, ou melhor, nas "longidade" do lugar onde estão reunidos altos dirigentes políticos. Os autocarros fazem percurso diferentes, com horários alterados, enfim uma m...
Aliás, nunca vi tanto polícia junto, acho que neste momento um polícia está para um habitante... Todos eles bem armados, bem apresentados, parecendo ter grandes tarefas, enquanto outros colegas se mantem dentro de carros com motores ligados a pensar em alguma coisa, embora parados... eles interpelarem todo o mundo, exigindo papeis que não sei se garantem segurança alguma... Como diz o meu colega: "deviam ir para a cidade do México..."
Também se podem ver carros com a seguinte identificação: "Hot Car"...

E como oportunidade é algo que os homens de hoje sabem tirar proveito, então vamos embora para as manifestações. No sábado eles exigiam paz e o fim da presença de tropas alemãs no Afeganistão, hoje gente do mundo árabe se juntou numa esquina da região onde decorre a mega cimeira, tendo a sua frente uma cortina de polícias a sua altura, com cartazes exigindo tudo o que voces já sabem, alias, já nem precisamos de ler, não é?
E um pouco mais adiante, numa conceituada instituição do governo alemão, estão reunidas não mais do que doze mulheres cobertas de panos verdes na cabeça, elas dão muitos risinhos e estão animadas, enquanto que outras, não cobertas, lhes dão uma atenção fora do comum, para além de lhes garantir todas as condições... O tema do encontro é "Mulheres no Afeganistão." Fiquei com a sensação de que os papas estão a fazer trabalho a sério no grande salão, e deixaram as filhas no parque de diversões...