quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Descoberta agradável em momento inoportuno

Cruzamo-nos num momento de algumas aspas na vida, eu e a escrita de Amin Nordine. Conheci a sua Rosa de Xicuachula no dia do seu casamento com a fotografia do Miquidade, aquele casamento perfeito que caiu do plano do ideal para o real, porque os dois são execelentes nas suas artes. Uma pena que o pai da noiva não tenha vivido para assistir a este momento. E fiquei  também com pena que o "operário da poesia" tenha nascido em mim num momento em que fisicamente ele morria, dupla surpresa...

Rosa Xicuachula


Rosa bebeu um nipónico paleio

Aquela amorosa flor de puta

Que era de toda banga maior disputa

Calcinho e meia calcinha em rodeio


Mamava-lhe uma sede abrupta

Quando vinha gingar um passeio

Chulava despida sem receio

Logo entesava nocturna labuta


por Amin Nordine,
“Duas Quadras para Rosa Xicuachula”
Beira/ Setembro/1997

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

E foi derramado o copo de água nas Televisões privadas de Moçambique...

Até bem pouco tempo os programas da Igreja Universal do Reino de Deus eram um exclusivo da Televisão Miramar em Moçambique. Eram produtos que serviam de chacota para quem não acreditava nos sermões do bispo Edir Macedo e muito menos respondiam aos pedidos de dizímos dessa igreja. Também as outras televisões privadas não desejavam, de forma nenhuma, "sujar-se" ou "contaminar-se" com tal produto, afinal era a credibilidade dos canais que estaria em causa.
Para o meu espanto esses mesmos canais que faziam de conta que a Igreja Universal do Reino de Deus não existia, transmitem hoje os programas "do copo de água na mão", e em horário quase nobre!  Já vi durante uma manhã vários canais passarem em simultaneo os cultos desta igreja.
Não há alternativa, quer você queira, quer não, tem de "estar com o copo de água na mão" de manhã  (a minha esteticista disse que não há nada mais saudável do que dois copos de água logo de manhã, portanto que dupliquem os programas de Edir Macedo em nome da sáude, pelo menos). Mas não está mau de todo, sempre resta a TVM, a Televisão Pública de Moçambique, que ainda resiste graças aos contribuintes!
Nisto tudo há ainda outro fenómeno interessante, é que a Miramar, segundo alguns moçambicanos, se está a profissonalizar. E parece também que se está a "limpar" "sujando" a concorrência com os programas que lhe deram a péssima fama.
Caso para lembrar aquela velha pergunta: o que o dinheiro não faz, não é?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A (in)dependência no Sudão

Quase todos os sudaneses votaram pela autodeterminação do sul do Sudão. O sul, que é rico em recursos naturais, tem motivos para festejar pela vitória. Entretanto, as infraestruturas de que depende para que os benefícios dos seus recursos sejam sentidos nas suas vidas estão no norte. O mais novo país do mundo já sabe com quem quer fazer parcerias nesse sentido, com o Quénia. Quais serão os custos de ir para tão longe? Porque deixa de fazer uma pareceria "consigo" mesmo para fazer com o seu irmão? É bom ter irmãos, mas primeiro temos que nos tolerar dentro da nossa casa, ou com os nossos "ex-eus". De onde começa a boa vizinha? Na tolerancia... Será este um bom começo de relações ou apenas a continuidade da crise?

Corredores complexos ou labirintos?

Que cenários a Africa Austral, e Moçambique em particular, pode assistir por causa dos corredores ferroviários da Beira e de Nacala? Sob o ponto de vista diplomático já há alguma tensão entre vizinhos, sob o ponto de vista económico também já há um braço de ferro que pode comprometer grandes projectos. O economista moçambicano Luís Magaço fala sobre as dinámicas destes importantes meios de escoamento de mercadoria a Deutsche Welle, numa conversa com Nádia Issufo.


Foto: Ismael Miquidade



Nádia Issufo: O Malawi depende dos corredores moçambicanos de Nacala e a linha de Sena, que não estão ainda a operar, para escoar os seus produtos.  Sendo assim, acha legítima esta vontade do Malawi de usar o rio Chire para escoar e receber as suas mercadorias ?
Luís Magaço: Eu acho que não, o rio Chire que depois atravessa Moçambique através do rio Zambeze, é um rio que está sob a soberania do governo moçambicano, portanto o Malawi não tem a legitimidade para usar a rota até ao Índico sem ter  por nuencia do governo moçambicano o troço que envolve a República de Moçambique.

NI: Economicamente o que significaria para Moçambique perder o Malawi como utilizador dos seus portos?
LM: Qualquer comercial que deixar de usar os nossos portos, assim como vê o caso do Zimbabwe cuja a situação económica condiciona imenso a utilização e a viabilização do porto da Beira, qualquer parceiro que deixe de usar os nossos portos tem um impacto económico e financeiro sobretudo signficativo, não há dúvidas. Agora, não se faz uma parceria comercial a qualquer preço, o governo moçambicano está a condicionar a viabilização do projecto a partir de um estudo ambiental, penso que há razões mais do que suficientes para que o governo do Malawi aguarde  pelos resultados do estudo por forma a tomar as decisões de utilização do rio.

NI: Então não se pode dizer que Moçambique está a "encurralar" o Malawi?
LM: Eu não diria isso, eu diria que houve da parte do Malawi um pouco a ingenuidade ou a arrogância  de tentar abusar do teritório da República de Moçambique e o governo moçambicano está a mostrar o que realmente pode, impedindo que o rio seja utilizado como via de escoamento do produto malawiano. Claro que isto é uma moeda com duas faces, em relação ao rio nós podemos inviabilizar o projecto malawiano, mas o Malawi  também pode inviabilizar o projecto de escoamento de  carvão através de Nacala, e pelo que oiço o Malawi não está  a facilitar a viazbilização da construção de uma linha ferrea através do seu território. É verdade que ainda é possível para Moçambique encontrar uma via alternativa, a via Dona Ana-Sena, e depois subir entre lagos, mas é uma via mais longa e mais dispendiosa.

NI: Moçambique poderá ceder face a essa posição do Malawi?
LM:  Em democracia há de facto um jogo de oportunidades, um jogo temporal. A seu tempo eu penso que os dois se vão entender e que o governo moçambicano vai viabilizar o escoamento do comércio externo do Malawi e este por sua vez vizbilizar a construção da linha ferrea para Nacala através do seu teritório. Eu penso que a seu tempo isso irá acontecer porque o braço de ferro não favorece as duas partes.

NI: A pressão que os CFM está a fazer a empresa indiana responsável pela linha de Sena e também a abertura da ponte Samora Machel em Tete será uma tentativa do governo de Moçambique de aliviar o Malawi que está com dificuldades de escoar e receber as suas mercadorias e ao mesmo tempo dar uma maior abertura para uma maior negociação no caso do corredor de Nacala?
LM: Nós vamos assistir nos próximos tempos a várias dinámicas económicas na região centro e em particular naquele eixo entre Tete, Nacala e o Oceano Índico, vamos ouvir falar de uma forte dinámica de interesses. Agora estamos a ouvir falar de empresas canadianas a anunciarem a descoberta de vários minérios na região de Tete, o interesse da Zâmbia pela utilização do porto da Beira, essa quase obsessão do Malawi pelo escoamento da sua produção. Cada uma das partes vai querer tirar o seu próprio proveito. Neste momento o braço de ferro entre Moçambique e o Malawi não favorece aos dois, porque nós perdemos com a não construção da linha ferrea e o Malawi perde com a não utilização do rio Zambeze.
Há uma parte signficativa do comércio externo do Malawi que é feita via Tanzânia e oMalawi durante muitos anos optou pelo porto de Durban ao invés de utilizar o porto da Beira. Entpa, em determinados momentos os países da região, neste caso o Malawi, tem adoptado estratégias diferenciadas para contornar algumas dificuldades. É uma grande verdade que o normal funcionamneto da ponte Samora Machel vai aliviar imenso o sufoco do Malawi no escoamento da sua produção. Quanto a empresa indiana, toda a gente estava impaciente porque nunca mais eles conluem o projecto para Moatize e isso pode comprometer os planos de exportação da Vale  e da Riversdale.

NI: Este consórcio indiano, para além do atraso na conclusão da linha de Sena mantém uma relação difícil com a Vale que quer escoar o seu carvão. Agora a emprsa brasileira vai acções no Corredor do Nacala por onde deverá escoar também o seu carvão. Quais são as implicações disto tudo?
LM: Para já pelo que me consta os indianos são uma carta fora do baralho, os CFM vão assumir a responsabilidade pela construção da linha, eu julgo que vão contratar outra empresa. O corredor da Beira continua a ser o troço mais curto a partir de Tete, a dificuldade tem a ver com o porto da Beira, mas penso que isso está equacionado, a Emodraga tem contratado dragas japonesas para fazer o assoreamento. Mesmo que a Vale conclua a linha de Nacala  vai continuar a exportar de forma mais barata a partir da Beira.

NI: Mas há vantagens para o país se a Vale tem comparticipação numa empresa que escoa o seu próprio produto?
LM: A Vale tem a sua própria rede  ferroviária, eu acho que o país tem a vantagem neste emprendimento se conseguir assegurar do consórcio que constrói a linha ferrea que Moçambique continuará a usar a mesma linha ferrea para o transporte de passageiros e de outras mercadorias para outros destinos, ou seja, desde que não seja privado.

NI: O que se pode esperar com estas dinámicas todas nos corredores de Nacala e da Beira?
LM: Primeiro que deixemos das guerras psicológicas, verbais e retaliações  através da imprensa e passemos a acção e coloquemos  as linhas ferreas a funcionarem para o desenvolvimento dos corredores, que estes sejam mais de desenvolvimento do que de transporte. Que ao longo das linhas ferreas se desenvolvam outros empreendimentos que favoreçam o país, e também neste caso o Malawi, e com isso se gere emprego.

NI: O porto de Nacala está muito bem localizado, existem naquela região empresas a fazerem prospecção de hidrocarbonetos, o projecto de areias pesadas também está próximo, prevê-se ainda a construção de um porto petrolífero, a região de Nacala também é industrial, para além de constituir um porto para o Interland, para o carvão de Tete e muitas outras coisas. Como enquadra este porto tomando em conta todos estes factores para o desenvolvimento de Moçambique?
LM: Ainda bem que temos um projecto ancôra para redinamizar o porto de Nacala. Ainda bem que temos um gigante mundial interessado em explorar uma linha ferrea que liga este porto, ouvi dizer que irão passar por dia, de Moatize para Nacala, 17 comboios e 118 carruagens por dia, isto é muito. Vai significar uma total mudança em toda a perspectiva de vida daquela zona, penso que tudo isto vai empregar uma novo valor ao porto de Nacala e atribuir-lhe a capacidade e a robustez necessária de um porto a altura do seu potencial. E isso será, para mim, um grande ganho numa altura em que se está já a transformar o aeroporto militar de Nacala num aeroporto internacional e civil. Isso significa que Nacala vai se tornar um entreposto importantíssimo da região centro e norte de Moçambique.  

Se quiser pode mais sobre o assunto em: 
http://www.dw-world.de/dw/0,,9585,00.html
Selecione a emissão da manhã de 4 de Fevereiro de 2011 
Ou leia mais em:
http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/contentx/1175998

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Magrebe: quedas (anti)democráticas?

Está todo mundo a espera que o presidente Hosni Mubarak saia do poder, ou caia, como muitos dizem. Só me custa a entender como se usa a justificativa da democracia (principalmente a comunidade internacional) para que o homem "caia", se ele foi eleito democraticamente... pela lógica não se está a respeitar a democracia, o homem termina o seu mandato já em Agosto. Entretanto, a democracia popular exige que o Mubarak caia. Tudo isto é um paradoxo, que democracia é a legitima? É a prescrição ou a vontade?
Outra coisa, ouvi uma pessoa desconfiar que ele "caia" a francesa. Como que queria que ele saisse? Como um fugitivo?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O crude causa cegueira?

O presidente da Guiné Equatorial é agora o presidente da União Africana, uma designação que é legitimada pelas regras da organização. Entretanto, a comunidade internacional está num zun-zun-zun, com a designação porque Teodoro Obiang não dá oportunidade aos direitos humanos no seu país, para além de que está no poder há bastante tempo, desde 1979 através de um golpe de Estado, e segundo as regras democráticas, não há alternância de poder. Mas o país de Obiang é o terceiro maior produtor de crude de África, e os principais compradores do produto, principais apologistas do respeito de direitos humanos e democracia, parece que foram cegados pelo expesso preto do crude e a sua voz só tem expressão na boca de outros, no caso através de ONGs. Por sua vez, estas ONGs que tem consciência desta cegueira e mudez, já reagiram, de acordo com a  Human Rights Watch  "Os principais países africanos produtores de petróleo escapam às críticas da comunidade internacional, apesar das suas práticas repressivas e de corrupção generalizada", esta é uma  conclusão da organização apresentada no seu relatório anual publicado no último dia 24. Ainda de acordo com o relatório "Washington, cujas empresas dominam o sector petrolífero, limitou-se a "tomar algumas medidas" contra o regime do Presidente Teodoro Obiang Nguema, enquanto a antiga potência colonial espanhola "recusou aplicar qualquer sanção" contra o país."
A Alemanha, outro país defensor das liberdades, tem também uma postura dúbia neste ponto, pois quando empresários seus vão a Guiné Equatorial procurar oportunidades de negócios, tem a imprensa alemã que é o seu cartão de visitas a acompanhar essas viagens.
E se por um acaso acontecer um golpe de Estado na Guiné Equatorial, estes mesmos pareceiros comerciais cegos, ganham magicamente a capacidade de visão e soltam a língua, calculo eu. Vão se lembrar de todas as irregularidades subjacentes a produção de petróleo, menos a sua comparticipação nelas, claro! Vão içar a suas bandeiras de democracia e direitos humanos por cima do defunto presidente...