quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O genocídio será a cartada final contra Gbagbo?

Alassane Ouattara, o candidato reconhecido pela comunidade internacional como o presidente legitimo da Costa do Marfim, enviou um embaixador as Nações Unidas que alertou ontem para a eminência de um genocídio. De acordo com a LUSA Yussuf Bamba, reconhecido no último dia 23 pela Assembléia Geral
da ONU como o representante do país junto da organização internacional, disse: "Estamos a dois dedos de um genocídio. É  preciso fazer alguma coisa".
Desconfio deste discurso por dois motivos:
Primeiro porque a ONUCI, as forças de segurança da ONU no país, disse um dia depois do pronunciamento de Bamba, que o país registou uma grande redução da violência. De acordo com a ONU, na semana passada foram registadas apenas seis mortes, enquanto que na semana anterior foram contabilizadas 173 vítimas
mortais. É verdade que a situação é tensa e espera-se o pior, para além de que as negociações para o fim da crise mostram-se infrutíferas. Mas convenhamos que afirmações muito opostas ao mesmo tempo sobre o mesmo assunto são de deixar uma pulga atrás de qualquer orelha.
Segundo, penso que com esta "previsão" de genocídio de Bamba, ou Ouattara apoiado pela comunidade internacional, parece haver uma tendência de "encurralar" o ainda presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, ao máximo, e o máximo que a comunidade internacional pode fazer, quando já não há mais respeito pelos direitos humanos e nem democracia, é o TPI. Todos nós sabemos que as acusações são sempre "crime de guerra e contra a humanidade e/ou genocídio.
Muitos dos dirigentes africanos com uma lista de "feitos" caem nas mãos do Tribunal Penal Internacional.  Como é o caso de Jean-Pierre Bemba, ex vice-presidente da RDC, do ex-presidente da Libéria Charles Taylor, ou então o TPI tenta a todo custo caçá-los, como o presidente do Sudão Omar Al Bashir. Entretanto, a União Africana tem rejeitado firmemente a actuação pouco equilibrada do TPI e rejeitou em Julho deste ano a abertura de uma delegação deste organismo em África. Ler mais em: http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/go/uniao-africana--lideres-africanos-rejeitam-tribunal-penal-internacional
Logo, eu chego mesmo a pensar que a jogada da ala de Ouattara é mesmo forte ou suja. E também não nos esqueçamos que os apelos para o uso da violência têm sido feitos, em voz bem alta, pelos dirigentes apoiantes do homem da comunidade internacional, Alassane Ouatara.

Hoje fiquei envergonhada...

Ia no autocarro com algumas mães e seus filhos nas mãos e nos carrinhos de bebe. E numa paragem entrou mais uma, ela estacionou o carrinho e foi mais para atrás estacionar o filho, lindo e imparável como todas as crianças. Um senhor de meia idade cedeu gentilmente o lugar aos dois. O puto trazia na mão um galho, que provavelmente apanhou pelo caminho, e a mãe tentava delicadamente controlar os movimentos "demasiado" espontâneos do seu filho para que o galho não fosse espetar o olho do senhor idoso que estava a sua frente, porque outras partes do corpo do idoso aquela obra já morta da natureza já tinha acariciado com certa velocidade... Eu assistia o filme deliciada com a aquela cena maternal, quando o gentil cavalheiro me perguntou educadamente se eu não podia ir lá ajudar aquela mãe aflita, juro que fiquei envergonhadíssima... Não fui capaz de mostrar a minha solidariedade para com a mulher que mais parecia um malabarista a tentar controlar o carrinho e o filho imparável simultaneamente... Apenas me divertia com a cena, que achava a mais linda do mundo! Ser mãe e o seu agradável sofrimento... Lá fui eu ficar com as mãos de prontidão, caso o imparável decidisse cair. Chegados ao seu destino a mãe malabarista, o imparável e o carrinho de bebe saíram do autocarro, e qual é o meu espanto? Não havia bebe nenhum no carrinho! A minha preocupação e a do cavalheiro tinham sido quase em vão... mas valeu a pena mesmo assim!
Contei a uma colega o sucedido e mesmo antes de terminar ela perguntou-me: "porque não foi o homem ajudar a mãe??". Pois é... Eu nem tinha pensado nisso... Afinal esta idéia, também machista, de que a mulher é que deve cuidar das crianças faz parte de mim, mulher! Por isso na hora nem pensei no absurdo da proposta... E acho que nunca vou pensar assim na minha vida... Por mais independente que seja, e reivindique direitos e obrigações (des)iguais, o lado materno fala mais alto que qualquer atitude machista! Que talvez até nem seja machista, mas sim natural, e o natural fala... nem que seja só quando o coração derrete com cenas destas

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Iveth e o seu cabelo crespo

Num jornal electrónico descobri hoje uma nova cantora de Moçambique, chama-se Iveth. O artigo referia-se principalmente a critica social que a cantora faz na sua música, do estilo rap. Fiquei curiosa e lá fui ao youtube a procura de sons. Ouvi a entrevista que a cantora deu a um canal televisivo local, e até certo ponto fiquei bem impressionada com o discurso que ficou fundamentalmente marcado, para mim, na questão do "contrato social". O que só atiçou mais ainda a minha curiosidade. Vi o segundo videoclipe de Iveth, cujo titulo da música é "Afro", é de se tirar o chapéu no que se refere a qualidade de imagem ou do vídeo, a beleza humana, a natureza etc, mas chegou...

O banho de água gelada sobre a minha curiosidade...
"...o cabelo crespo eu sou" e ela não é cabelo crespo, pelo menos no vídeo ela é cabelo bem liso e super comprido, como o dos brancos e amarelos, mas ela é bem preta, ai já não contraria o verso "pele escura eu sou". Não há a sintonia "ideal" entre a imagem da cantora, e a mensagem de exaltação da negritude, ou africanidade (o que é discutível...) da música.
Não duvido que realmente Iveth tenha orgulho de ser preta e africana, como também respeito os gostos dela e as suas tendências. Só acho que num vídeo que pretende exacerbar esse orgulho todo, exactamente a sua defensora faça, ou mostre precisamente o contrário com os seus "não" cabelos crespos...
Mais ainda, ela traz um lindo lenço na cabeça, que intencionalmente não foi usado para cobrir os cabelos lisos... Até parece que no caso vale a frase "faz o que eu digo e não o que eu faço"...

O meu oportunismo...
Na verdade acho que estava a espera de uma "Iveth" para escrever o que penso sobre os "empréstimos em demasia"...
A cada dia que passa vejo mais pretas a usarem cabelos postiços que imitam exageradamente o cabelo dos brancos, o que eu acho preocupante... Com um comprimento excessivo e irreal demais para nós as pretas. E quando é todo ele loiro, ou numa outra cor que não represente uma carecterística nossa numa proporção de pelo menos 50%, mesmo não sendo eu a "visada", sinto-me "comprometida" com "outro" e por isso envergonhada ...
Entretanto, já gosto de cabelo desfrizado, já usei assim e tenho vontade de repetir, e acho lindo ver os brancos, amarelos ou de outra cor, de mirabas ou rastas. Também gosto de postiços, mas sem exagero!
Os postiços exagerados me trazem vários pontos de interrogação quanto aos seus usuários, terão problemas de identidade, terão vergonha do que são, ou tem referências erradas? A ser considerada esta última hipótese, o assunto fica mais grave ainda... O que estamos a consumir ou o que estamos a deixar entrar livremente em nós? Até que ponto somos frágeis e manipuláveis?
Poderia falar até não poder mais sobre os "apêndices artificiais" indispensáveis as mulheres de hoje, como por exemplo as unhas de gel, seios e rabo de silicone, excessiva maquilhagem, etc. Cada um sabe de si, mas não vou deixar de dizer que quando há muita concentração de artifícios perde-se o "defeito natural", e vence a "perfeição" que só pertence a Deus ou então a media que a sabe explorar muito bem... Mas é melhor ficar por aqui...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Costa do Marfim: Quem é quem?

Laurent Gbagbo: desconhecedor da real democracia?
É o tal que nunca foi o homem da França, logo, tem poucas chances de ser o homem dos Estados Unidos da América, portanto, não tem o apoio de ninguém. É um cristão do sul da Costa do Marfim. Também é o homem que foi o único a usar a camisa da democracia na altura da guerra civil na Costa do Marfim, portanto, pode-se dizer que era a esperança do alcance da paz e estabilidade.

Alassane Ouattara: o Morgan Tsvangirai da Costa do Marfim?
Tem o apoio da ex-colónia, a França, e dos Estados Unidos da América. Estes dois países já fizeram inúmeras ameaças a Gbagbo desde o inicio da crise. Aliás, para além da ONU, os outros dois países mais referidos pela media quando se trata de reconhecimento da vitória de Ouattara. Este é um muçulmano do norte da Costa do Marfim (há também quem diga que é na verdade do Burquina Faso). A sua legitimidade para se tornar presidente do país fundamenta-se nos principios internacionais de democracia, venceu pela maioria dos votos segundo a comissão eleitoral local, entretanto, o Tribunal Supremo, que dá a última palavra, deu vitória ao ainda presidente Gbagbo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Lá se foi o natal...

E quem deve estar a dar graças a Deus por isso, são os que tiveram de fazer de pai natal em Moçambique com temperaturas a rondarem os 40 graus centigrados! Com as tradicionais roupas vermelhas quentes, o gorro, as botas, e a barba! É o lado ridiculo desta assimilação... Até hoje ninguém pensou em minimizar o sofrimento desse gordo dos tropicos, usando tecidos frescos como a casquinha de ovo, por exemplo, para as suas roupas, ou em vez de calças fazer calções, em vez de camisa de mangas compridas serem de manga curta, etc...
Na verdade não sei de quem é a culpa... É de quem vende ou de quem compra?
O conceito e o valor do natal, são bons de se aproveitar, eu acho. Mas o resto, que também é bonito, tem de ser adequado principalmente a estação do ano, para além de outros factores. O pinheiro, por exemplo, não é uma árvore tipica dos trópicos, embora existam algumas por lá. Quantas vezes não se vê pessoas a destruirem os pouco pinheiros da cidade das acácias? Porque alguns não querem comprar as ávores plásticas... Sendo assim, não dá para se pensar numa alternativa, mais "alcançavel" e semelhante ao emblemático pinheiro e de fácil reposição?
Outra coisa engraçada, é que o pai natal em Moçambique é uma especie só de shopping center! Aquele que alicia ao consumismo, ao servir os homens de negócio, e que transpira de VERDADE para levar um pouquinho de natal também para os seus...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O "línguo-centrismo" africano

Muitos pretos que encontro fora do meu país pensam que falo a língua deles. Já um jornalista do Uganda, sabendo que sou africana e sua quase vizinha, perguntou-me admirado: "como não falas Kiswahili?" e eu no mesmo tom respondi: "Porque você não fala Português?". E a conversa terminou por ali, eu tinha resolvido o problema, naquele caso, ou tinha chamado aquele homem a reflexão, penso eu, sem querer ser pretenciosa.
Com os africanos que falam Francês, é mais irritante ainda. Abordam-me logo em Francês, com a certeza de que falo a língua deles! Devem assumir que toda a África foi colonizada pela França, o que não é bem verdade. São tão "umbiguistas" linguisticamente que até faz dó...

Hi mane? madjonidjoni?

Bom dia Sister!
Na década de noventa visitei um famoso parque sul-africano. Todos os trabalhadores pretos que me viam cumprimentavam-me e sorriam-me muito simpaticamente e eu respondia. Era frequentemente chamada de sister, mas só eu preta era a privilegiada, os outros eram invisíveis. Um fenómeno para mim! Na minha terra ninguém cumprimenta o outro só porque é de determinada "coloração", cumprimenta-se sim por boa educação, por simpatia, ou outros motivos.
De lá até hoje o fenómeno continua. Sempre que passo pelo aeroporto Oliver Tambo quase todos os pretos que lá trabalham cumprimentam-me! Outros até na sua língua materna que eles "sabem" que eu falo...

Colega, a vida está dura...
Mas nem tudo é um mar de rosas na terra do Arco Iris. No serviço de migração do aeroporto Oliver Tambo eu não existo. Pelo menos para os funcionários dos serviços de migração, eles são cegos, surdos e mudos. Eu juro! Quando eu digo bom dia eles não ouvem, quando sorrio e olho para as sua caras e seus olhos, como eu gosto de fazer, eles não me vem, e da boca deles não sai a frase "de nada" quando digo obrigada. Juro que não estou a espera do "boa viagem" ou "Adeus". Nesse momento do serviço de migração só existem o meu passaporte e os seus colegas, para quem eles tem ouvidos, olhos e boca. Talvez a lamentarem-se sobre os baixos salários e outras dificuldades...


O país vive a paz, mas os corpos continuam armados
Tenho na mente as imagens das manifestações contra o Apartheid na África do Sul na década de oitenta. Era uma fedelha, mas as imagens e a situação do país marcaram-me profundamente. Aliás, o meu país também foi vítima directa deste regime de minoria branca. E a causa sul-africana era portanto naturalmente nossa. A postura física dos manifestantes foi o que ficou gravado na minha memória. É uma postura de guerra, como as danças guerreiras sul-africanas e moçambicanas também, mesmo sendo manifestações de paz. Também isso não mudou até hoje, as manifestações deste ano pela exigência do aumento de salários são semelhantes. O movimento dos ombros, um de cada vez, e o movimento das pernas enquanto caminham lembram-me a guerra.

São dados a um incesto
Não é o que está a pensar, não me refiro ao assédio no verdadeiro sentido da "carne", mas sim da palavra. Na hora da revista no aeroporto, alguns "controladores de bombas" assediam as suas "sisters" com aqueles piropos "padrão" africanos. Nada de anormal, pelo contrário, provocam aquela gargalhada interior e alimentam egos femininos, pelo menos o meu... Embora a cara amarre na hora! Isto é só para mostrar que existem lá também coisas "normais"!